Por Atna Arquitetura — Arquitetas Leka Costa e Maria Eduarda
É comum associarmos arquitetura a estilo. Casa de serra tem madeira. Casa de praia tem tons claros. Mas, na prática, um bom projeto não começa pela estética. Ele começa pelas pessoas.
Estas duas residências pertencem à mesma família, mas foram pensadas para contextos completamente diferentes. Uma está na serra, cercada pelas montanhas. A outra, na praia, aberta para a piscina e para a vida ao ar livre.
Embora as linguagens sejam opostas, existe um fio condutor entre elas: ambas foram desenhadas para a mesma forma de morar. Na residência da serra, nosso trabalho concentrou-se no projeto de interiores, dialogando com uma arquitetura já existente e potencializando suas qualidades. Já na casa de praia, arquitetura e interiores nasceram juntos, permitindo que todas as decisões fossem tomadas de forma integrada desde o início.
A Neuroarquitetura mostra que nosso cérebro responde aos ambientes de acordo com os estímulos que recebe. Luz, temperatura, materiais, cores e paisagem influenciam diretamente nossa sensação de conforto e pertencimento. Por isso, repetir soluções em lugares diferentes raramente produz bons resultados.
“Cada projeto começa entendendo o lugar, mas principalmente entendendo quem vai viver nele.” — Leka Costa

Na residência da serra, a arquitetura já estabelecia uma forte conexão com o entorno. O projeto de interiores foi desenvolvido para reforçar essa relação.
A madeira envolve praticamente todos os ambientes, aquecendo visualmente os espaços e criando uma sensação imediata de acolhimento. Pedra natural, couro e metais escuros completam uma composição que conversa naturalmente com o clima da região.
Mais do que uma escolha estética, materiais naturais despertam uma percepção de conforto que nosso cérebro reconhece de forma quase intuitiva.

Na praia, o cenário muda completamente.
A luz natural é intensa, os espaços são mais abertos e o cotidiano acontece entre a casa e a área externa. Os materiais acompanham esse estilo de vida, trazendo leveza sem abrir mão do conforto.

Um dos ambientes que melhor demonstra essa adaptação é o bar.
Na serra, ele acompanha a força do restante dos interiores. Madeira, estrutura metálica preta e uma composição robusta acolhem uma cristaleira que já fazia parte do acervo da família, incorporando memória afetiva ao projeto.
Ali, o bar deixa de ser apenas um apoio para bebidas e passa a fazer parte da convivência.
“Quando um objeto carrega história, o projeto deve valorizá-lo, não escondê-lo.” — Maria Eduarda

Na casa de praia, o mesmo ambiente assume outra personalidade.
A marcenaria clara, os perfis delicados e os planos de vidro fazem com que o bar praticamente desapareça na composição, permitindo que a atenção permaneça na integração dos espaços e na luz natural.
Não se trata de repetir um desenho, mas de interpretar a mesma necessidade em outro contexto.

A vista muda a cada estação.
O interior foi pensado para não competir com essa arquitetura nem com a paisagem. Materiais, iluminação e mobiliário conduzem o olhar naturalmente para o exterior, permitindo que as montanhas estejam sempre presentes na experiência de quem ocupa a casa.
Na Neuroarquitetura, essa conexão visual com a natureza é conhecida por reduzir níveis de estresse e aumentar a sensação de bem-estar.

Enquanto na serra o cenário é contemplativo, na praia ele é vivido.
Grandes aberturas aproximam a área social da piscina, permitindo que a circulação aconteça de maneira espontânea durante todo o dia.
A arquitetura deixa de separar ambientes e passa a conectar experiências.

Cada material foi escolhido para conversar com o clima.
Metais pretos, pedra natural e couro caramelo criam uma composição de maior densidade visual, capaz de transmitir aconchego antes mesmo do primeiro contato físico com o ambiente.
São escolhas que envelhecem bem e fazem sentido para uma casa onde permanecer dentro também é parte da experiência.

Na praia, a sensação é outra.
A madeira aparece em tonalidades suaves, o azul surge discretamente e as fibras naturais ajudam a construir um ambiente fresco, luminoso e despretensioso.
A casa não precisa chamar atenção. Ela serve de cenário para aquilo que realmente importa: viver.
“A melhor arquitetura é aquela que melhora a rotina sem que as pessoas percebam isso o tempo todo.” — Leka Costa

No fim, o que se repete entre essas duas casas não são os materiais, nem as cores.
É a forma de morar.
Ambientes amplos e integrados.
Cozinhas conectadas às áreas de convivência.
Espaços preparados para receber amigos, reunir a família e aproveitar o tempo juntos.
Mesmo sendo casas destinadas aos momentos de descanso, a funcionalidade nunca ficou em segundo plano.
Porque um bom projeto não é aquele que pode ser reproduzido em qualquer lugar.
É aquele que entende que cada paisagem pede uma resposta diferente, mas que as pessoas continuam levando consigo seus hábitos, suas memórias e sua maneira de viver.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro papel da arquitetura: não criar casas parecidas, mas fazer com que cada uma pareça pertencer exatamente ao lugar onde está — e, principalmente, às pessoas que a chamam de lar.





