Há homens que sabem a data da consulta do filho, estão sempre ao lado da esposa quando ela vai ao médico, lembram dos exames dos pais e não deixam faltar nada dentro de casa. Quando a pergunta é sobre a própria saúde, porém, a resposta costuma ficar para depois.
A dificuldade de transformar a prevenção em hábito continua sendo um dos desafios da saúde masculina. No Brasil, cerca de 44% dos homens nunca foram ao urologista para avaliação ou exames preventivos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Entre os homens com mais de 40 anos, 46% dizem procurar atendimento médico apenas quando sentem algum sintoma. Entre os homens que utilizam exclusivamente o Sistema Único de Saúde (SUS), o índice chega a 58%.
Porém, algumas doenças não esperam o aparecimento de sintomas para avançar. Segundo dados da SBU, o câncer de próstata está entre as principais causas de morte por câncer entre os homens no país. São 48 óbitos por dia, com aumento de 21% na mortalidade na última década. Ainda assim, o cuidado preventivo continua disputando espaço com a sensação de que “não vai acontecer comigo”.
Para o urologista Fábio Borges, esse é um dos principais motivos que fazem homens chegarem ao consultório mais tarde do que deveriam. “Praticamente metade nunca passou por um urologista. Muitas vezes, eles chegam à primeira consulta com uma idade superior àquela em que deveriam ter iniciado o acompanhamento”, afirma.
Conforme o especialista, não é raro receber pacientes aos 65 anos que nunca haviam procurado um urologista e só chegaram ao consultório depois do surgimento de sintomas urinários. Em outros casos, o diagnóstico ocorre quando a doença já está avançada.
Quando cuidar de si parece menos importante
Por trás da demora existe um comportamento que Fábio compara à chamada “Síndrome do Superman”, uma expressão que ajuda a explicar a postura de homens que se consideram fortes o suficiente para não adoecer.
“O homem sempre se viu como o provedor da família. Então, pensa primeiro na saúde dos filhos, da esposa e das pessoas ao redor. A própria saúde acaba ficando para depois, porque ele acredita que nunca vai acontecer nada com ele”, explica.
A lógica parece paradoxal, afinal, justamente quem se preocupa em permanecer disponível para a família deixa de cuidar da própria saúde. O resultado pode aparecer anos depois, quando uma condição que poderia ter sido identificada precocemente exige uma intervenção maior.
O levantamento da SBU mostra ainda outra dimensão desse comportamento. Apenas 32% dos homens acima dos 40 anos se consideram muito preocupados com a própria saúde, embora metade relate medo ou ansiedade quando pensa no assunto. O câncer de próstata aparece como a doença urológica que mais provoca medo, citado por 58% dos entrevistados. A impotência sexual vem na sequência, com 37%.
O medo de descobrir também adia o cuidado
“Quem procura, acha.” A frase, conhecida entre os homens, traduz outra barreira apontada pelo urologista: o receio de receber um diagnóstico capaz de alterar a rotina, a autonomia ou a vida sexual. Mas a lógica da prevenção caminha na direção contrária. “A intenção do diagnóstico precoce é justamente encontrar a doença no início, quando ainda há melhores possibilidades de tratamento”, destaca Fábio.
A diferença entre descobrir cedo ou tarde pode ser construída antes mesmo de qualquer sintoma. Por isso, o acompanhamento não deve começar apenas quando alguma coisa deixa de funcionar. A consulta também não se resume à próstata. Para Fábio, o urologista pode assumir um papel importante na avaliação global do homem, especialmente quando o paciente não mantém acompanhamento regular com outras especialidades.
Além de condições como câncer de próstata, hiperplasia prostática, disfunção erétil, câncer renal e cálculos renais, a consulta pode levantar alterações como pressão alta, diabetes e dislipidemia. São problemas que também interferem no risco cardiovascular.
O corpo começa a falar antes da doença
A idade é outro ponto que merece atenção. Segundo Fábio, embora a recomendação tradicional de acompanhamento urológico tenha considerado os 50 anos, existe uma tendência de antecipação para os 40 anos nos Estados Unidos e alguns países europeus, especialmente pela preocupação com o câncer.
Mas não é apenas a próstata que entra nessa conta. A partir dessa faixa etária, mudanças relacionadas à testosterona, à massa muscular e à densidade óssea passam a dividir espaço com o aumento da prevalência de hipertensão, diabetes e alterações do colesterol.
“Imagine um paciente que desenvolveu diabetes aos 41 anos e só procurou atendimento aos 50. Ele passou nove anos sem tratamento. Por isso, existe essa tendência de antecipar o acompanhamento para os 40 anos”, exemplifica.
Dor, por exemplo, costuma ser relativizada. Sintomas urinários aparecem aos poucos: maior frequência ao banheiro, jato mais fraco, dificuldade para esvaziar a bexiga ou várias interrupções do sono durante a noite. Como a evolução é lenta, o homem se acostuma com a mudança e passa a tratá-la como parte natural do envelhecimento.
“Praticamente todos os sintomas acabam sendo ignorados. A dor, por exemplo, nunca é normal, mas muitas vezes o homem minimiza o problema e vai tomando analgésicos até o momento em que a dor se torna insuportável e ele procura atendimento”, relata.
Curiosamente, existe uma exceção. Quando o problema envolve a vida sexual, a procura costuma ser mais rápida. A disfunção erétil, segundo o urologista, é uma das queixas que levam o homem mais precocemente ao consultório. Uma falha recente costuma provocar preocupação suficiente para quebrar a resistência que outras alterações não conseguem vencer.
Saúde masculina vai além da próstata
Talvez um dos maiores desafios esteja em desconstruir a imagem que ainda acompanha a especialidade. Para alguns homens, urologista é sinônimo de próstata. Para outros, significa apenas disfunção erétil. E há ainda aqueles que associam a consulta imediatamente ao toque retal.
Fábio considera que esses são alguns dos principais mitos que precisam ser enfrentados. “Ele acha que consultar com um urologista já significa que está velho ou que o especialista é só para disfunção erétil, mas não é. É para a saúde global mesmo”, afirma.
A prevenção, portanto, não começa e termina na próstata. Inclui rins, bexiga, função sexual, saúde metabólica e os sinais que o corpo apresenta ao longo dos anos. Também passa pelo cotidiano. Alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, consumo de álcool e estresse interferem na saúde de maneira ampla e podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento de diferentes doenças.
O cigarro é um dos exemplos. Além dos inúmeros impactos conhecidos sobre o organismo, aumenta o risco de câncer de bexiga. A obesidade também pode estar associada a maior agressividade do câncer de próstata. “Hábitos saudáveis não são importantes exclusivamente para a urologia, mas para a vida da pessoa como um todo”, reforça.
Fábio costuma fazer essa reflexão com os próprios pacientes ao enfatizar que existe diferença entre envelhecer e envelhecer com qualidade. “Como você quer chegar aos 80 anos? Acamado, em uma cadeira de rodas, ou caminhando, fazendo suas atividades, correndo e mantendo massa muscular? Essa é a diferença entre começar o cuidado de forma precoce ou deixar para depois”, enfatiza.
“O homem pensa muito na família e, justamente nessa hora, esquece de pensar nele. Quando você cuida de si, está se preservando, aumentando sua expectativa de vida e melhorando sua qualidade de vida no futuro. Isso também é pensar na família”, conclui o urologista.
Texto: Marciano Bortolin (SC 3566 JP)






