O tratamento contra o câncer de mama não termina com a eliminação do tumor. Quimioterapia, radioterapia, cirurgias e hormonioterapia podem provocar alterações na região pélvica e comprometer a saúde urinária, vaginal e sexual. Ressecamento intenso, queimação, dor durante a relação sexual, redução da elasticidade vaginal, atrofia vulvovaginal e sangramentos podem surgir após o tratamento.
Entre as alterações urinárias estão dor ou ardência ao urinar, aumento da frequência urinária, urgência, perda involuntária de urina e infecções urinárias recorrentes. A uroginecologista Nadhine Ronsoni alerta que o acompanhamento dessas condições faz parte do cuidado integral durante e após o tratamento oncológico.
“O estrogênio exerce papel importante na manutenção dos tecidos vaginais e urinários. A hormonioterapia, com medicamentos como tamoxifeno e inibidores da aromatase, além da interrupção da atividade dos ovários provocada pela quimioterapia, pode induzir um estado semelhante à menopausa”, enfatiza.
A redução hormonal deixa a vagina mais fina, frágil e menos lubrificada. A diminuição dos lactobacilos também altera o pH vaginal. “Nas vias urinárias, a mudança favorece a proliferação de bactérias e aumenta o risco de infecções recorrentes. A perda de força e elasticidade dos tecidos que sustentam uretra e bexiga também pode provocar ou agravar incontinência e urgência urinária. O conjunto de alterações é conhecido como Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGM)”, salienta Nadhine.
A abordagem ganha destaque durante o Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama e à importância do cuidado integral com a saúde da mulher. Além da prevenção e do tratamento da doença, a campanha também abre espaço para discutir os impactos provocados pelas terapias oncológicas e a qualidade de vida após o câncer.
Vida sexual também é afetada
A saúde sexual representa outro aspecto impactado pelo tratamento. Conforme a profissional, estudos apontam que entre 60% e 80% das mulheres tratadas por câncer de mama relatam algum grau de disfunção sexual. A queda da libido, a falta de lubrificação e a dor durante a relação estão entre as principais dificuldades.
“O impacto também envolve fatores emocionais. Alterações na imagem corporal provocadas por cirurgias, cicatrizes ou perda de cabelo, além do cansaço associado ao tratamento, podem interferir na vida íntima”, acrescenta.
Desejo sexual hipoativo e dor no contato íntimo, incluindo dispareunia e vaginismo, estão entre as queixas mais frequentes. A abordagem ainda encontra barreiras, pois a prioridade durante o tratamento costuma estar concentrada no combate ao tumor. Constrangimento e a percepção equivocada de que a dor representa uma consequência inevitável do tratamento também dificultam a busca por atendimento.
Para Nadhine, sintomas urinários e genitais não devem ser encarados como consequências permanentes. A tendência é de progressão das alterações sem tratamento, com impacto na qualidade de vida, nos relacionamentos e nas atividades cotidianas.
“A perda urinária pode provocar isolamento social, ansiedade e restrições para trabalhar ou praticar exercícios. Infecções urinárias recorrentes também podem gerar complicações quando não recebem acompanhamento adequado”, ressalta.
Cuidado depois do tumor
A Uroginecologia pode atuar na recuperação do conforto e da funcionalidade da região pélvica. A avaliação especializada permite definir estratégias individualizadas e seguras para pacientes oncológicas.
O acompanhamento pode envolver fisioterapia pélvica para fortalecimento da musculatura e recursos como laserterapia e radiofrequência pélvica, destinados à estimulação de colágeno e à melhora da vascularização da mucosa vaginal, sem utilização de hormônios. “O objetivo da medicina moderna não é apenas garantir a sobrevivência, é garantir a sobrevivência com qualidade”, destaca a profissional.
“O cuidado após o câncer também envolve autonomia, autoestima, identidade e vida afetiva. A atenção à saúde geniturinária amplia o tratamento para além do tumor e contribui para que a mulher retome atividades, relações e decisões sobre o próprio corpo com mais conforto e segurança”, pontua.
Texto: Marciano Bortolin





