Por Atna Arquitetura — Arquitetas Leka Costa e Maria Eduarda Meneguel
Quando pensamos nos ambientes destinados ao casal, é comum que o quarto receba toda a atenção. Mas existe outro espaço onde a vida a dois se revela de maneira muito mais prática: o banheiro.
É ali que duas rotinas acontecem simultaneamente, especialmente nos horários mais corridos do dia. E um bom projeto precisa fazer algo que parece simples, mas exige bastante precisão: permitir compartilhar sem obrigar a dividir tudo o tempo inteiro.
Na prática, isso significa pensar em fluxos, privacidade, simultaneidade de uso e organização. Mais do que desenhar um banheiro bonito, é preciso entender quem utiliza cada área, em quais horários e de que maneira.
“Um banheiro de casal funciona bem quando duas pessoas conseguem utilizá-lo ao mesmo tempo sem que uma interfira constantemente na rotina da outra” — Leka Costa, arquiteta.
Essa leitura encontra respaldo também na neuroarquitetura. Ambientes previsíveis, legíveis e organizados tendem a exigir menos esforço cognitivo nas tarefas cotidianas. Quando sabemos intuitivamente onde encontrar cada coisa, quando os percursos são claros e quando diferentes atividades podem acontecer sem conflito, o espaço deixa de gerar pequenas interrupções e passa a favorecer uma rotina mais fluida.

Compartilhar também exige preservar a individualidade
Neste projeto, desenvolvido pelo nosso escritório para um casal que valoriza especialmente praticidade e organização, o banheiro foi pensado quase como uma sequência de pequenos setores conectados.
A integração com o closet facilita a transição entre banho, cuidados pessoais e vestir-se, reduzindo deslocamentos desnecessários. Ao mesmo tempo, a setorização permite preservar a privacidade em determinados usos.
O sanitário, por exemplo, está em um ambiente independente. A solução permite que uma pessoa utilize essa área enquanto a outra permanece na bancada ou no banho — uma decisão funcional que interfere diretamente na qualidade de uso do banheiro.
Dentro desse espaço foi projetado ainda um armário de pouca profundidade, suficiente para acomodar os itens necessários ao sanitário e criar um pequeno estoque de produtos de higiene. Para uma cliente extremamente organizada, não faria sentido projetar primeiro a estética e depois descobrir onde guardar as coisas. A organização precisava fazer parte da arquitetura.

“Quando o projeto entende os hábitos dos moradores, soluções muito simples ganham enorme importância. Às vezes, poucos centímetros de profundidade em um armário resolvem uma necessidade que acompanharia aquele casal todos os dias” — Maria Eduarda, arquiteta.
E há aqui uma questão interessante para a neuroarquitetura: organização não é apenas uma preferência estética. O excesso de estímulos visuais compete pela nossa atenção. Ao prever armazenamento adequado e reduzir objetos expostos sem necessidade, criamos um ambiente visualmente mais silencioso e cognitivamente mais confortável.

Uma bancada preparada para duas rotinas
Na bancada, a individualidade aparece novamente.
Foram propostas duas cubas, permitindo o uso simultâneo, além de portas e gavetas no gabinete para que diferentes categorias de objetos possam ser armazenadas de maneira coerente com sua frequência de uso.
Atrás dos espelhos, novos armários ampliam a capacidade de armazenamento justamente onde os produtos precisam estar: próximos ao rosto e às mãos. É um princípio básico de ergonomia que muitas vezes é negligenciado em nome de uma composição mais “limpa”. Mas minimalismo sem lugar para guardar a vida cotidiana dura muito pouco.
O espelho recebeu ainda iluminação frontal, especialmente importante para atividades que exigem precisão, como maquiagem, cuidados com a pele ou barbear. Ela ajuda a reduzir sombras excessivas no rosto e melhora a percepção durante essas tarefas.
Aqui, iluminação deixa de ser decoração e passa a ser desempenho.
Sob a perspectiva da neuroarquitetura, a qualidade da luz também participa da nossa percepção de conforto e orientação. Um projeto luminotécnico bem resolvido precisa responder ao uso: uma luz pode favorecer tarefas de precisão, enquanto outra constrói uma atmosfera mais tranquila para o banho. Não existe razão para exigir que uma única cena luminosa faça tudo.
Conforto também está nas pequenas decisões
Outro elemento que se tornou praticamente indispensável em nossos projetos é o toalheiro aquecido.
Em uma região de umidade elevada, ele deixa de ser visto apenas como luxo e passa a responder a uma condição real do ambiente. Além do conforto ao utilizar a toalha, favorece sua secagem entre os usos — um exemplo de como tecnologia pode entrar no projeto sem precisar se tornar protagonista visual.
No banho, a dimensão generosa do box permitiu a instalação de dois chuveiros. Não porque todo casal precise tomar banho junto, mas porque o espaço pode oferecer essa possibilidade com conforto, sem transformar a experiência em uma disputa territorial debaixo d’água.
E isso também é arquitetura para casais: criar proximidade quando ela é desejada e independência quando ela é necessária.


Uma materialidade que reduz o ruído
A funcionalidade foi acompanhada por uma escolha deliberadamente tranquila de materiais.
O revestimento em tonalidade clara, com aparência de travertino, cria uma base atemporal e visualmente contínua. A referência à pedra natural aproxima o ambiente de uma materialidade mais orgânica, enquanto a paleta suave reduz contrastes excessivos.
Os metais em tom bronze entram como contraponto. Aquecem a composição e evitam que os tons claros tornem o banheiro excessivamente frio ou impessoal.
Nas imagens, essa escolha se torna especialmente perceptível pela maneira como a luz atravessa o ambiente. A luz natural revela suavemente a textura do revestimento ao longo do dia, enquanto a iluminação indireta acrescenta profundidade sem criar excesso de informação visual.
Essa combinação dialoga com princípios utilizados na neuroarquitetura: materiais que remetem à natureza, texturas percebidas como naturais, iluminação confortável e menor excesso de estímulos podem contribuir para ambientes percebidos como mais acolhedores e restauradores.
Mas há um cuidado importante: neuroarquitetura não deveria ser usada como justificativa sofisticada para qualquer escolha estética. O que importa é compreender como luz, materialidade, organização, escala, privacidade e fluxo interferem conjuntamente na experiência de quem utiliza aquele espaço.
“Não projetamos um banheiro para ser contemplado parado. Projetamos para uma sequência de ações que acontece todos os dias. A beleza precisa sobreviver à rotina — e, de preferência, torná-la melhor” — Leka Costa, arquiteta.
Não existe um banheiro de casal ideal
Talvez esse seja o ponto mais importante deste projeto.
Não existe uma fórmula universal para o banheiro de casal.
Há casais que se arrumam juntos e outros em horários completamente diferentes. Há quem precise de uma bancada extensa, quem priorize o banho, quem queira tudo absolutamente escondido e quem prefira ter os objetos cotidianos à vista. Para alguns, duas cubas são fundamentais; para outros, ocupariam uma área que poderia ser utilizada de maneira muito mais inteligente.
É por isso que projetar bem não significa simplesmente reproduzir soluções consideradas sofisticadas.
Significa investigar hábitos antes de desenhar respostas.
Neste banheiro, a organização, a setorização, a integração com o closet, o armazenamento abundante, a iluminação adequada e o conforto do banho respondem especificamente à rotina deste casal.
Em outro projeto, as respostas provavelmente seriam outras.
E é justamente aí que um banheiro deixa de ser apenas uma composição bonita de revestimentos e metais e passa a ser arquitetura: quando o espaço não determina como as pessoas devem viver, mas é desenhado a partir da maneira como elas realmente vivem.
“Cada casal estabelece seus próprios acordos, hábitos e pequenas manias. Quando conseguimos traduzir isso para a planta, o projeto ganha algo que nenhuma tendência consegue oferecer: pertencimento” — Maria Eduarda, arquiteta.





