Por Simone das Graças Nogueira Feltrin
E se uma criança pudesse abrir um livro e encontrar nele não apenas uma história para ler, mas uma história escrita por ela mesma?
Foi a partir dessa possibilidade que nasceu o projeto “Ciranda de Livros: De criança para criança”, uma iniciativa que transforma estudantes em autores e faz da escola um espaço de criação literária. Entre palavras, desenhos, memórias e imaginação, crianças da rede pública de ensino tiveram a oportunidade de acompanhar suas ideias ganharem forma, páginas e leitores.
Mais do que produzir livros, a proposta coloca a criança diante de uma descoberta: ela também pode criar literatura.
O projeto foi desenvolvido por meio do Programa de Incentivo à Cultura de Santa Catarina (PIC), instituído pela Lei Estadual nº 17.942, de 12 de maio de 2020, e regulamentado pelo Decreto Estadual nº 1.269, de 4 de maio de 2021. Por meio de incentivo fiscal, projetos culturais previamente aprovados pela Fundação Catarinense de Cultura podem captar recursos junto a empresas patrocinadoras, conforme as regras do programa. A iniciativa teve como proponente a Eva & Ivo Produções Culturais LTDA.
Criada em 2012, a empresa atua na área cultural com produção teatral, contação de histórias e oficinas literárias, desenvolvendo ações voltadas à arte, à literatura e à formação cultural.
É nesse encontro entre cultura, educação e literatura que a Ciranda ganha sentido: aproximar as crianças dos livros não apenas como leitoras, mas também como criadoras de histórias que podem circular e chegar às mãos de outras pessoas.
Mais do que receber um livro pronto, cada pequeno autor leva para casa dois exemplares da sua obra, podendo compartilhar a conquista com a família. Um terceiro exemplar fica na escola, onde passa a integrar o acervo e pode ser lido por outros estudantes. Assim, as histórias não ficam guardadas apenas como lembrança: ganham novas mãos, novos leitores e novas possibilidades de continuar circulando.
Crianças no papel de autoras
O projeto resultou na criação e impressão de livros de literatura infantil produzidos por estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas de quatro regiões de Santa Catarina: Oeste, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e Sul.
Na região Sul de Santa Catarina, o projeto ganhou vida em escolas de Urussanga e Cocal do Sul. Em Urussanga, participaram a E.E.B. Barão do Rio Branco, com 429 livros, e a E.E.F. Antonieta Quintanilha de Andrade, com 33. Já em Cocal do Sul, a E.E.B. Professora Francisca Martins de Oliveira Burigo participou com 153 livros.
Ao todo, foram 615 livros produzidos por estudantes da região Sul, transformando histórias, desenhos, memórias e imaginação em páginas que agora podem chegar a outros leitores.
Ao longo de 2026, os professores envolvidos participaram de uma formação para conhecer a proposta e receber orientações para desenvolver a produção dos livros com os estudantes.
O processo passou por diferentes etapas: elaboração dos textos, revisão e digitação, produção das ilustrações e, posteriormente, utilização da plataforma destinada à edição e diagramação das obras.
Dessa forma, a criança não participou apenas como leitora. Teve a oportunidade de experimentar o processo de criação de uma obra literária e perceber que sua escrita, sua imaginação e seus desenhos também podem ocupar as páginas de um livro.
Um lançamento marcado por emoção
O resultado desse trabalho ganhou forma no dia 16 de setembro de 2026, durante o lançamento dos livros, realizado na E.E.B. Barão do Rio Branco, em Urussanga. A noite reuniu estudantes, professores, familiares, representantes da comunidade escolar e pessoas que contribuíram para que as histórias saíssem das salas de aula e chegassem às páginas de uma publicação.
A escola foi palco de um momento de celebração da leitura, da escrita e, sobretudo, da autoria das crianças.
Para a assessora de direção da escola, Isabella Lunardi, iniciativas como essa ampliam as possibilidades de aprendizagem e valorizam o protagonismo dos estudantes.
“Mais do que incentivar a leitura, a proposta amplia o olhar sobre a própria criança. Ela deixa de ocupar apenas o lugar de leitora e passa a experimentar o processo de criação, percebendo que também pode escrever, imaginar, ilustrar e compartilhar suas próprias histórias.”
O evento também contou com a presença da secretária de Educação de Urussanga, Andreza Bonetti, que destacou a produção escrita das crianças e valorizou a oportunidade de transformar suas criações em livros.
Representando a Eva & Ivo Produções Culturais LTDA, responsável pelo projeto, Ivo Dickmann também esteve presente e destacou a importância do PIC Sul como instrumento de incentivo à cultura e de aproximação entre iniciativas culturais, escolas e comunidades.
A programação da noite foi além da apresentação dos livros. Crianças e familiares participaram de momentos de integração e celebração, entre eles uma apresentação teatral com Nélio Spréa, da Parabolé Educação e Cultura, que levou brincadeiras, interação e diversão ao público.
A música também fez parte da celebração. As crianças do 4º ano emocionaram os presentes com a apresentação de “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, em uma interpretação conduzida pelo coral regido pela própria professora Agatha Ferreia.
Entre livros, música, teatro e encontros, a noite representou a culminância de um processo construído ao longo do ano. Cada publicação carregava não apenas palavras e ilustrações, mas também o tempo dedicado à criação, as ideias compartilhadas em sala de aula e a coragem de cada criança ao se reconhecer como autora.
Quando uma criança recebe nas mãos um livro que também ajudou a construir, a literatura ganha outro significado. Ela deixa de estar apenas nas páginas e passa a fazer parte da história de quem a escreveu.
Mas a Ciranda não terminou na autoria das crianças.
Em algumas das escolas participantes, os próprios professores também aceitaram o desafio de escrever seus livros. Transformaram memórias, experiências, sentimentos e elementos da cultura local em narrativas e, ao fazer isso, passaram de mediadores da escrita a autores.
A experiência criou uma espécie de encontro entre quem ensina e quem aprende: de um lado, crianças descobrindo que podem escrever suas próprias histórias; de outro, professores vivendo também a experiência de colocar suas histórias no papel.
Quando quem ensina também escreve
Na E.E.B. Barão do Rio Branco, em Urussanga, essa experiência reuniu diferentes trajetórias e formas de escrever. Professores que diariamente incentivam os estudantes a colocar suas ideias no papel também tiveram a oportunidade de experimentar os desafios e as descobertas de construir uma obra.
Entre essas experiências Juliana Duarte, professora da turma do 3º ano do Ensino Fundamental.
Sua relação com a educação foi construída a partir de recomeços. Por dificuldades enfrentadas no passado, não concluiu o Ensino Médio no período regular. Aos 35 anos, retomou os estudos e concluiu essa etapa. Depois, formou-se em Licenciatura em História, com especialização em Cultura Afro-Brasileira, área na qual atua profissionalmente há cerca de dez anos. Mais tarde, realizou outro sonho: graduou-se em Pedagogia, área em que atualmente atua.
“Minha trajetória até a educação foi construída com recomeços, desafios e muita persistência. Hoje, tenho na educação uma das minhas maiores paixões.”
Para participar da Ciranda, Juliana escolheu transformar uma experiência marcante de sua própria vida em uma crônica: o período em que enfrentou o câncer.
A escrita a levou a revisitar sentimentos relacionados ao diagnóstico, os medos, as incertezas e, principalmente, a força necessária para seguir adiante. Na narrativa, a própria professora tornou-se personagem de sua história.
“Na minha história, assim como nas histórias das crianças, existe um personagem que enfrenta desafios. Só que, dessa vez, a personagem era eu.”
Ao transformar essa vivência em literatura, Juliana encontrou uma maneira de revisitar sua trajetória e compartilhar com os estudantes uma dimensão ainda mais humana da autoria: escrever também pode ser uma forma de dar sentido às próprias experiências.
Histórias que nascem do lugar onde se vive
Na mesma escola, a professora da turma do 2º ano do Ensino Fundamental, Maiara Milioli Barbosa, levou para as páginas do projeto uma história marcada pela identidade cultural de Urussanga.
Pedagoga, com pós-graduação em Educação Especial Inclusiva, Alfabetização e Letramento e Metodologias Ativas e Tecnologias Educacionais, Maiara atua há nove anos com alfabetização na rede pública. Em 2023, criou a Colmeia Alfabetizadora, comunidade voltada ao compartilhamento de materiais, propostas e experiências com professoras alfabetizadoras de diferentes regiões do Brasil.
Dentro da Ciranda, escreveu “Chapeuzinho Roxo”, um reconto inspirado em uma história conhecida pelas crianças, mas recriado a partir de elementos da realidade local.
A escolha da cor remete às uvas, às parreiras e à identidade cultural de Urussanga. De descendência italiana e com a experiência de ter vivido na Itália, Maiara também buscou aproximar a narrativa de referências que fazem parte de sua própria história.
“Queria criar uma obra que pudesse ser trabalhada com as crianças e, ao mesmo tempo, tivesse uma ligação com Urussanga e com as nossas raízes.”
O reconto também nasceu do desejo de apresentar às crianças uma história conhecida sob uma nova perspectiva, valorizando a cultura do lugar onde vivem.
“Foi essa motivação, exatamente por isso. Amo recontos e não tinha visto nenhum ainda valorizando nossa cultura.”
A experiência mostra como a Ciranda abriu espaço não apenas para a criação de histórias, mas também para que a literatura pudesse dialogar com a memória, a identidade e a cultura de cada comunidade.
Uma história de amor que nasceu dentro da sala de aula
A professora do 4º Ano, Fernanda Ronsoni, que atua há sete anos na educação, também encontrou uma oportunidade para transformar uma experiência vivida em sala de aula em literatura.
Especialista em Alfabetização e Letramento e com experiência na formação de professores, Fernanda acredita que a aprendizagem nasce da curiosidade e do encantamento. Em sua prática, busca transformar a sala de aula em um espaço de descobertas, levando para perto das crianças experiências com a natureza e situações que despertem perguntas e novas aprendizagens.
Foi nesse cotidiano que nasceu a inspiração para seu livro.
Durante anos, Fernanda leu histórias de autores de diferentes lugares e imaginou como seria transformar sentimentos, lembranças e experiências em palavras e ilustrações capazes de tocar outras pessoas.
Seu livro registra o período da gestação da filha, Laura, uma história que também foi acompanhada de perto pelas crianças da turma. Os estudantes observaram o crescimento da barriga, fizeram perguntas, demonstraram carinho e acompanharam cada etapa daquela espera.
A obra tornou-se, assim, um registro de uma experiência pessoal, mas também de uma memória compartilhada com os alunos.
Ao escrever, Fernanda encontrou uma forma de eternizar o amor pela filha e, ao mesmo tempo, registrar a participação das crianças em um momento tão significativo de sua vida.
A história mostra que, muitas vezes, a literatura nasce justamente daquilo que é vivido todos os dias: uma experiência, uma espera, uma relação construída em sala de aula ou uma memória que merece ser guardada.
A experiência de professores autores também esteve presente em outras escolas participantes do projeto.
Na E.E.F. Antonieta Quintanilha de Andrade, a turma do 5º ano, formada por 11 estudantes, transformou ideias, lembranças e imaginação em histórias. A professora Luci de Costa, que atua há 21 anos na educação, acompanhou cada etapa do processo.
Para ela, a proposta permitiu trabalhar leitura e escrita de uma maneira diferente, fazendo com que os estudantes percebessem que também poderiam ocupar o lugar de autores.
Mas Luci decidiu ir além da orientação dos alunos: também escreveu seu próprio livro, “Diário de uma Sonhadora”, no qual relata parte de sua trajetória para enfrentar e superar o medo de dirigir.
Enquanto os estudantes descobriam que suas experiências poderiam se transformar em histórias, a professora também experimentava esse processo.
“Enquanto eles descobriam que eram capazes de transformar suas experiências e imaginação em histórias, eu também vivenciava esse processo.”
Assim, professora e alunos passaram a compartilhar uma experiência comum: a descoberta de que todos têm uma história para contar.
Em Cocal do Sul, na E.E.B. Professora Francisca Martins de Oliveira Burigo, a Ciranda envolveu 51 estudantes de dois 5º anos e um 4º ano.
Para a professora Taciana Machado Becker, que atua há 20 anos na educação, participar do projeto foi uma experiência marcada por desafios, descobertas e emoção.
“Foi maravilhoso fazer parte deste projeto, desafiador de certa forma, como todos os projetos que nós professores almejamos durante nossas aulas diárias. Mas a alegria de vê-lo concretizado torna tudo mágico e encantador.”
Taciana também se tornou autora. Em seu livro, por meio de uma poesia, revisitou sentimentos, lembranças e momentos de sua trajetória profissional.
“A vida passa e são muitas vidas que passam por nós. E que bom poder plantar a semente boa nessas vidas.”
A escrita tornou-se, nesse caso, também uma forma de memória. Ao lado dos estudantes, a professora experimentou a emoção de transformar sentimentos e experiências em palavras e, depois, vê-las materializadas em um livro.
Uma ciranda de muitas vozes
Nas diferentes escolas participantes, as histórias ganharam formas distintas. Houve espaço para memórias, recontos, crônicas, poesias, experiências pessoais e imaginação.
Entre as crianças, escrever significou descobrir que suas ideias poderiam ocupar as páginas de um livro. Entre os pais e familiares, o momento foi de orgulho e emoção. Muitos fizeram questão de registrar em fotografias o instante em que os pequenos autores receberam seus livros, folhearam suas histórias e se reconheceram nas páginas.
Cada sorriso, cada olhar atento e cada fotografia ajudaram a guardar uma noite que, para muitas famílias, ficará como uma lembrança especial da trajetória escolar das crianças.
Entre os professores, a experiência significou também experimentar o lugar de quem cria, escolhe palavras, organiza lembranças e compartilha uma história com outros leitores.
E talvez esteja justamente aí uma das marcas mais bonitas da experiência: quando quem ensina também escreve, a criança percebe que o livro não é algo distante.
Ele pode nascer dentro da própria escola, da própria comunidade, de uma memória vivida, de uma experiência compartilhada ou de uma história que ainda estava esperando para ser contada.
Nas mãos das crianças e dos professores, diferentes histórias passaram a circular. Cada uma carrega o olhar único de quem decidiu transformar uma ideia, uma memória, um sentimento ou um sonho em palavras.
Porque, na escola, a literatura também pode nascer das mãos de quem aprende.
E quando uma criança descobre que pode escrever suas próprias histórias, ela não recebe apenas um livro.
Ela descobre que sua voz também merece ocupar uma página.
E, ao lado dela, o professor também redescobre que pode ser autor.
Veja fotos do evento:
































