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Da dificuldade ao encantamento: quando a matemática se transforme em propósito

A trajetória de uma professora que transformou desafios em inspiração e encontrou nos números uma maneira de ensinar, despertar sonhos e transformar vidas

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul

Conexão e Educação
Por Simone das Graças Nogueira Feltri

Algumas histórias começam muito antes da escolha de uma profissão. Na infância, entre brincadeiras de professora, um quadro-negro na área de casa e a inspiração da tia Fabiana, pedagoga, Helen Dominik Cattaneo Gonçalves já demonstrava seu encantamento pelo ensino. Foi, porém, uma experiência inesperada durante a vida escolar que ajudou a definir seu caminho: as dificuldades nas disciplinas de exatas acabaram despertando nela o desejo de se tornar professora de Matemática.

Hoje, com oito anos de atuação na educação, Helen trabalha no Colégio Unithy, em Cocal do Sul, e no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), nas unidades de Criciúma e Urussanga. É licenciada em Matemática pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e em Pedagogia. Sua formação inclui pós-graduações em Estratégias Matemáticas, Análise de Dados, Estatística Aplicada e Orientação Escolar na Prática. Atualmente, também cursa pós-graduação em Pedagogia Empresarial.

Por trás da formação e das experiências profissionais, existe uma trajetória marcada por descobertas, oportunidades e encontros que ajudaram a construir sua identidade como educadora.

A história de Helen também é marcada por desafios enfrentados desde a primeira infância. Com 1 ano e 3 meses de idade, ela teve meningite, que resultou em uma deficiência física: a perna esquerda ficou menor que a direita. Durante a infância e a vida escolar, precisou lidar com limitações, inclusive nas aulas de Educação Física, das quais não podia participar como os demais colegas. Ao longo do período escolar, também passou por quatro cirurgias.

Até aproximadamente os 10 anos, Helen conta que sentia tristeza e dificuldade para compreender por que aquelas situações aconteciam com ela. Uma experiência, porém, ajudou a transformar sua maneira de olhar para a própria história.

Quando o médico que acompanhava seu caso informou à família que não poderia continuar o atendimento, Helen foi encaminhada para a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), no Rio Grande do Sul. Ao chegar ao local, deparou-se com uma cena que permaneceu em sua memória.

“Quando cheguei lá, havia uma fila de cadeiras de rodas. Eu me virei para falar com a mãe e, quando olhei novamente, não havia mais nenhuma”, recorda.

A experiência provocou uma mudança em sua perspectiva. “Depois daquele dia, entendi que havia situações mais difíceis que a minha e que eu era abençoada por Deus!”, relata.

As vivências da infância fazem parte de sua história e ajudam a compreender o caminho percorrido até aqui. Entre os desafios pessoais, as descobertas da vida escolar e a escolha pela docência, Helen construiu uma trajetória marcada pelo conhecimento, pela dedicação e pelo compromisso com a educação.

Quando a dificuldade se transformou em escolha

Desde pequena, Helen imaginava como seria estar à frente de uma turma. Gostava de acompanhar a tia Fabiana na escola onde trabalhava e de realizar atividades com ela. Em casa, transformava as brincadeiras em momentos de aprendizagem, ensinando seus alunos imaginários diante de um quadro de sala de aula.

Com o passar dos anos, outros professores também contribuíram para fortalecer esse desejo. Curiosamente, foi durante uma fase de dificuldades escolares que Helen encontrou uma resposta para seu futuro profissional.

Ao ingressar no Colégio Maximiliano Gaidzinski, reprovou no primeiro ano em Matemática, Física, Química e Desenho Geométrico. As quatro disciplinas envolviam cálculos e representavam um desafio para a estudante. A experiência, no entanto, não a afastou dessa área. Pelo contrário: foi justamente nesse contexto que decidiu ser professora de Matemática.

Sua história mostra que nem sempre os caminhos profissionais são construídos a partir das facilidades. Às vezes, são os próprios desafios que despertam novas possibilidades e ajudam a revelar uma vocação.

A Matemática além da sala de aula

Durante a graduação, uma oportunidade ampliou os horizontes de Helen. O professor Kristian Madeira, responsável pela disciplina de Estatística, concedeu-lhe a oportunidade de atuar como bolsista de iniciação científica na área da saúde.

A experiência permitiu que ela aprendesse diretamente com médicos, biomédicos e outros profissionais que utilizavam cálculos em suas atividades. O contato com esse universo revelou novas possibilidades para os conhecimentos matemáticos.

Logo após concluir a graduação, Helen passou a ministrar aulas de Bioestatística no Hospital São José, em Criciúma, para médicos e residentes.

A vivência reforçou uma percepção que acompanha seu trabalho: a Matemática vai muito além dos livros, das fórmulas e dos exercícios. Está presente em diferentes profissões e situações cotidianas, contribuindo para a compreensão da realidade e para a tomada de decisões.

Uma turma que ficou para sempre na memória

Entre tantas experiências vividas na educação, uma turma ocupa um lugar especial na memória da professora: a primeira turma de formandos da Escola de Educação Básica Caetano Bez Batti, em Urussanga.

Helen acompanhou esses estudantes no 8º ano e voltou a ser professora deles no primeiro e no segundo ano do Ensino Médio. Quando chegaram ao terceiro ano, em 2022, fizeram um convite que marcou sua trajetória: queriam que ela fosse a professora organizadora da formatura.

Começou, então, um período intenso de preparativos, trabalho coletivo e sonhos compartilhados. Entre as lembranças que guarda com carinho estão a paella organizada para arrecadar fundos e a realização da tão esperada cerimônia de formatura.

Mais do que participar de uma etapa importante da vida escolar daqueles jovens, Helen teve a oportunidade de acompanhar parte de seu crescimento e celebrar com eles a conquista de um objetivo.

Experiências como essa mostram que a docência também é feita de vínculos, confiança e histórias construídas ao longo do tempo.

Ensinar é trabalhar com sonhos e esperanças

Para Helen, ser professora significa, antes de tudo, trabalhar com amor, sonhos e esperanças.

Um dos momentos mais gratificantes da profissão acontece quando os estudantes compreendem um conteúdo que antes parecia difícil e conseguem relacioná-lo com situações práticas.

“Não existe um significado maior do que ver o brilho dos olhos dos adolescentes quando eles conseguem compreender os conteúdos e aplicar/visualizar a prática”, destaca.

É nesse instante que o conhecimento ganha sentido e a aprendizagem deixa de ser apenas uma obrigação escolar para se tornar uma descoberta.

Sua trajetória também evidencia a importância dos professores que acreditam nos estudantes, incentivam novas possibilidades e ajudam cada um a reconhecer suas próprias capacidades.

Uma mensagem para quem ensina

Ao deixar uma mensagem aos colegas de profissão, Helen convida os educadores a manterem a esperança e a valorizarem o amor pela docência.

“Acreditem, tenham esperanças e amem realmente a profissão”, aconselha.

Ela também recorda uma frase tradicionalmente atribuída a Confúcio: “Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar nem um dia na sua vida.”

A trajetória da professora nos lembra que ensinar é transformar dificuldades em possibilidades, despertar descobertas e participar de momentos que permanecem na memória.

Afinal, quando os números parecem difíceis, o incentivo de um professor pode ajudar um estudante a enxergar novas possibilidades — e até descobrir, em um desafio, o caminho para uma vocação.

Foi assim que Helen encontrou na Matemática não apenas uma profissão, mas um propósito: ensinar, inspirar e contribuir para a construção de novos sonhos.

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