Há dez anos, um espaço que acumulava lixo e estava praticamente abandonado começou a ganhar vida na Escola de Educação Básica Barão do Rio Branco, em Urussanga. Com a participação de estudantes, professores e famílias, o local foi transformado em uma horta produtiva que, ao longo dos anos, passou a ser muito mais do que um espaço de cultivo: tornou-se ambiente de aprendizagem, sustentabilidade, protagonismo e acolhimento.
A iniciativa integra o Projeto Barão Sustentável, desenvolvido de forma permanente desde 2016 pelos professores dos Anos Iniciais. Aos 85 anos de história, a escola, que atende mais de 600 estudantes, mantém ações voltadas à educação ambiental, reciclagem, cidadania, inclusão e preservação da natureza.

Uma transformação feita pela comunidade escolar
A implantação da horta começou no fim de 2015 e ganhou força em 2016. O terreno, que acumulava lixo e materiais abandonados, passou por um processo de limpeza e revitalização até se transformar em uma área com canteiros, hortaliças e atividades práticas de cultivo.
A professora Simone das Graças Nogueira Feltrin acompanha o projeto desde o início e atualmente é responsável pelas ações desenvolvidas na horta. Para ela, a transformação do espaço representa uma conquista coletiva. “Há dez anos, aquele espaço era praticamente abandonado, com lixo e sem utilização. Com o envolvimento de crianças, pais e professores, ele foi transformado em uma horta produtiva, que hoje faz parte da rotina da escola. Além de produzir alimentos, tornou-se um espaço de aprendizagem, cuidado e participação dos estudantes”, destaca Simone.
O projeto também reúne ações como campanhas de reciclagem, o Tampinhas do Bem, o cultivo de árvores frutíferas, uma parreira de uva Goethe e iniciativas de preservação ambiental nas margens do Rio dos Americanos.
Da terra argilosa às primeiras colheitas
Os estudantes participam de todas as etapas do cultivo, desde o preparo da terra e a adubação até o plantio, os cuidados e a colheita. Pó de café e cascas de ovos, por exemplo, são aproveitados como recursos naturais no cuidado com o solo. Outro avanço ocorreu no ano passado, com o início da compostagem a partir de restos de legumes e verduras. A prática contribuiu para melhorar a qualidade da terra dos canteiros, que apresentavam características mais argilosas.
Com o aumento da matéria orgânica no solo, as minhocas começaram a aparecer. A descoberta surpreendeu os alunos e virou mais uma oportunidade de aprendizado sobre o papel desses animais na decomposição da matéria orgânica e na formação de um solo mais fértil.
Neste ano, a colheita do aipim também despertou a curiosidade das crianças, que puderam acompanhar na prática o desenvolvimento do alimento, desde o plantio até a colheita.
Uma sala de aula a céu aberto
Atualmente, os canteiros recebem hortaliças e temperos como brócolis, couve e manjericão, além de outras espécies cultivadas conforme a época do ano. A cada colheita, mais de 100 produtos são embalados em papel, substituindo os sacos plásticos. O trabalho reforça, na prática, conceitos de sustentabilidade e consumo consciente.
A turma responsável pela continuidade das ações é o 5º ano, onde Simone atua. Os estudantes assumem tarefas no preparo da terra, plantio, cultivo e colheita e também passaram a receber outras turmas para compartilhar os conhecimentos adquiridos. “A horta permite relacionar conteúdos de Ciências, Geografia e Língua Portuguesa com experiências concretas. A Matemática também aparece no cotidiano, em atividades envolvendo medidas e cálculos relacionados aos canteiros”, explica Simone.
A experiência se conecta ainda à Minifeira Baronesa, projeto que trabalha educação financeira e empreendedorismo por meio da produção e comercialização de produtos pelos próprios estudantes.
Crianças aprendem e ensinam
O projeto também fortalece o protagonismo dos alunos. Os estudantes do 5º ano ensinam colegas de outras turmas a preparar a terra, plantar, cuidar das mudas e compreender a importância da preservação ambiental. “A ideia é que eles não sejam apenas participantes, mas também multiplicadores. Quando recebem outras turmas, eles compartilham aquilo que aprenderam e percebem que também podem ensinar”, destaca a professora.
A horta conta ainda com ferramentas adequadas para as crianças e uma pequena casinha para armazená-las. Os próprios estudantes são responsáveis pela organização: quem utiliza uma ferramenta precisa devolvê-la ao local correto.
Até o lixo recolhido pela comunidade escolar ganhou uma nova função. Uma “árvore do lixo” foi construída com materiais que seriam descartados, transformando resíduos em um recurso educativo. A experiência desenvolvida no Barão também é apresentada anualmente aos professores da rede estadual e vem sendo reconhecida como referência de trabalho ambiental e pedagógico.
Uma horta para acolher
Agora, a história iniciada há uma década ganha uma nova etapa com a proposta da Horta Sensorial – Caminhos que Acolhem e Transformam. A ideia surgiu a partir de uma experiência vivida dentro da própria horta. Durante uma atividade, uma estudante do 2º ano do Ensino Fundamental com Transtorno do Espectro Autista (TEA) relatou que se sentia acolhida e tranquila naquele ambiente.
A fala da criança despertou a atenção da professora Simone e da turma e levou a comunidade escolar a pensar em novas possibilidades para o espaço. Se a horta já era um ambiente de aprendizagem e sustentabilidade, também poderia ser um lugar de acolhimento, bem-estar e inclusão.
A proposta prevê a implantação de canteiros sensoriais e de um Caminho Sensorial, com diferentes texturas, materiais e elementos naturais para estimular os sentidos e proporcionar experiências de exploração, interação e descoberta. “O que começou como uma horta foi ganhando novos significados. Hoje percebemos que esse espaço pode acolher diferentes formas de aprender e também ajudar as crianças a se sentirem bem, pertencentes e seguras”, afirma Simone.
Um novo caminho para o Barão
A implantação dos novos espaços conta com apoio de uma cooperativa e representa a continuidade de uma história que começou com a recuperação de um terreno abandonado. Mais do que produzir alimentos, a horta passou a produzir experiências. Nela, os estudantes aprendem sobre natureza, alimentação, sustentabilidade, matemática, responsabilidade, cooperação e empreendedorismo.
Com a Horta Sensorial, o projeto amplia esse propósito e incorpora também a inclusão e o acolhimento. A intenção é deixar para a escola um espaço permanente de aprendizagem e convivência, construído a partir de uma ideia simples: transformar um lugar pode também transformar a maneira como as pessoas aprendem, convivem e se relacionam com o mundo.





































