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Empreendedorismo cria caminhos para imigrantes gerarem renda e construírem novas trajetórias

Daniela e Jaira deixaram seus países de origem e hoje comandam empreendimentos em diferentes segmentos na cidade

O número de estrangeiros que atuam como microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil vem crescendo nos últimos anos. Segundo levantamento do Sebrae, o país alcançou, em junho de 2026, a marca de 106 mil MEIs estrangeiros, alta de 24% em relação ao ano anterior. Em 2019, eram 42,9 mil. Santa Catarina concentra cerca de 14 mil desses empreendedores.

Além do início de uma vida em um novo país e das adaptações à cultura e ao idioma, os empreendedores imigrantes costumam sentir na pele uma dificuldade comum também aos pequenos negócios brasileiros: o acesso a linhas de crédito acessíveis. A Credisol, instituição sem fins lucrativos com foco em microcrédito produtivo e orientado, com sede em Criciúma (SC), tem registrado um crescimento gradual na concessão de microcrédito a estrangeiros que iniciam seus próprios negócios. Ao longo de 2026, cerca de 30 operações foram realizadas com esse público.

A saudade de casa transformada em negócio

A comerciante venezuelana Daniela Rivas, de 32 anos, chegou ao Sul de Santa Catarina em 2019. Antes de abrir o próprio negócio, ela e o marido trabalharam em outras atividades, mas a visão empreendedora a fez perceber um problema comum aos compatriotas que escolheram Criciúma para viver. Ao andar pelos supermercados da cidade, sentiam falta de itens específicos do país natal.

“Pensamos, então, em trazer para cá esses produtos e vender. Era algo pequeno, mas as pessoas foram conhecendo, indicando para outras e fomos crescendo aos poucos”, conta Daniela.

As vendas começaram de forma mais simples e, com o aumento da procura, deram origem a uma loja física no Centro de Criciúma. Além de venezuelanos, o estabelecimento recebe clientes de outras nacionalidades e também brasileiros, relata.

“Quando eles entram aqui, eles já se sentem na Venezuela. Tem pessoas que chegam e ficam felizes porque encontram uma coisa que lembra a casa, a família, a comida de lá”, observa a empreendedora.

Com o aumento das vendas, Daniela precisou ampliar o estoque e o capital de giro para sustentar o crescimento. Por indicação de outros amigos venezuelanos, ela conheceu a Credisol e passou a utilizar o microcrédito para investir no estabelecimento. “Esse recurso veio na hora certa e nos deu condições de manter o negócio. A gente consegue investir, comprar os produtos e continuar crescendo”, afirma.

Talento, raízes e empreendedorismo

Ao sair de Angola para o Brasil, com apenas 17 anos, Jaira Simões nem sonhava em abrir o próprio negócio. O objetivo, a princípio, era cursar Administração de Empresas Com o tempo, a influência dos pais, ambos comerciantes, também contribuiu para sua escolha pelo empreendedorismo.  O contato com o negócio familiar e o talento para fazer tranças e penteados afro foram a combinação para o início da atividade empreendedora. Começou embelezando pessoas próximas e, com o tempo, o trabalho chamou a atenção de outras pessoas, que passaram a procurar pelo serviço.

“Eu sempre fiz tranças. Desde pequena isso faz parte da minha vida. Quando cheguei ao Brasil, percebi que as pessoas procuravam e não tinham muitos profissionais especializados, então comecei a pensar que poderia transformar isso em trabalho”, conta.

O hobby se tornou negócio: um salão no Centro de Criciúma. Atualmente, o espaço conta com mais três profissionais, além de Jaira. Para investir na empresa, ela também buscou microcrédito. “Quando consegui o financiamento, ainda estava começando e tinha poucos recursos. Foi um dinheiro que chegou em um momento em que eu precisava comprar equipamentos”, explica.

O setor de beleza também está entre as atividades mais exercidas por empreendedores estrangeiros no Brasil. De acordo com o Sebrae, 6.663 MEIs estrangeiros atuam como cabeleireiros e em outras atividades de tratamento de beleza, o equivalente a 6,3% do total.

Microcrédito para diferentes necessidades de negócios

Prestes a completar 27 anos de história, a Credisol fornece microcrédito produtivo e orientado para diferentes necessidades dos pequenos negócios, como capital de giro, estoque e aquisição de equipamentos. Os agentes de crédito visitam os empreendedores, para verificar as demandas e dar orientações sobre o bom uso dos recursos, de forma produtiva.” 

Daniela e Jaira tiveram acesso a linhas de microcrédito com condições especiais, mas com modelos distintos. O Juro Zero é uma iniciativa do Governo de Santa Catarina, que subsidia os juros para microempreendedores individuais, com a operação realizada por instituições como a Credisol. Já o Microcrédito Delas é uma iniciativa própria da Credisol, voltada às mulheres empreendedoras, na qual a instituição abre mão de parte de sua receita ao oferecer condições diferenciadas, como forma de investir diretamente no empreendedorismo feminino, na geração de renda e no desenvolvimento social.

“Cada empreendedor chega com uma realidade diferente. No caso dos imigrantes, muitas vezes o negócio começa a partir de algo que eles já sabem fazer ou de uma necessidade que percebem ao redor. Quando a atividade começa a crescer, o crédito pode entrar como uma ferramenta para acompanhar esse desenvolvimento”, explica a agente de crédito da Credisol em Criciúma, Schaiane Mafioletti.

O olhar para o imigrante empreendedor, na visão da Credisol, contribui para a inclusão produtiva e eleva o trabalho já realizado pelas instituições de microcrédito em todo o país. “As OSCIPs cumprem um papel de permitir o acesso aos recursos necessários à estruturação e desenvolvimento dos negócios das pessoas com iniciativa e capacidade para empreender. Nosso olhar é para ampliar esse acesso e contribuir para que mais empreendedores possam gerar renda, conquistar autonomia e construir uma atividade sustentável ao longo do tempo”, destaca o coordenador Financeiro e ESG da Credisol, Stéfano Mattei. 

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