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Entre raízes, ciência e afeto: a educação como caminho para transformar vidas

Da inspiração de seus professores à conquista do Doutorado, Beatriz Fernandes Lima Luciano transforma conhecimento em oportunidades e acredita que ensinar também é construir uma sociedade mais justa e humana

Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul

Por Simone das Graças Nogueira Feltrin

Algumas vocações não nascem prontas. Elas florescem aos poucos, alimentadas por encontros, descobertas e experiências que revelam novos sentidos para a vida. A trajetória da professora Beatriz Fernandes Lima Luciano é assim: uma história em que a educação se tornou caminho, a ciência ganhou espaço e o compromisso com a transformação social passou a orientar sua prática docente.

Com dez anos de atuação na educação, Beatriz é professora concursada da EEB Caetano Bez Batti, integra o quadro permanente da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), na área de Ciências Biológicas, e atua como professora substituta no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Licenciada em Ciências Biológicas, com pós-graduação em Ensino de Ciências, mestrado e doutorado em Ciências Ambientais, construiu uma trajetória marcada pela pesquisa, pelo respeito à diversidade e pela valorização do conhecimento.

Mas, por trás dos títulos acadêmicos e das conquistas profissionais, existe uma história pessoal que também merece ser contada: a de uma mulher que enfrentou dificuldades de aprendizagem desde a infância e que, somente na vida adulta, encontrou respostas importantes para compreender sua própria trajetória.

Quando compreender a própria história transforma o olhar sobre a educação

Durante a vida escolar, Beatriz enfrentou dificuldades de aprendizagem que, por muito tempo, não tiveram uma explicação. Foi somente na vida adulta que conseguiu investigar e compreender aspectos importantes de seu neurodesenvolvimento.

Os diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1 de suporte, e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), apresentação combinada, trouxeram novas perspectivas para compreender experiências vividas desde a infância, incluindo desafios relacionados à atenção, à organização e às interações sociais.

A professora também convive com a fibromialgia, condição crônica caracterizada por dor persistente e fadiga, que acrescenta desafios à rotina. Ela percebe que períodos de maior sobrecarga profissional, emocional e sensorial coincidem com o agravamento dos sintomas. Embora não seja possível afirmar que a fibromialgia tenha sido causada pela neurodivergência, essa relação entre as exigências cotidianas e seu bem-estar faz parte de sua experiência pessoal.

Compreender a própria história permitiu a Beatriz olhar para experiências passadas sob uma nova perspectiva. As dificuldades que antes pareciam não ter explicação passaram a fazer parte de uma compreensão mais ampla sobre si mesma e sobre as diferentes formas de aprender, interagir e estar no mundo.

Essa vivência também abre espaço para uma reflexão importante sobre a educação. Quantos estudantes enfrentam dificuldades sem compreender suas causas? Quantos precisam de acolhimento, de estratégias diferentes de aprendizagem e, principalmente, de alguém que reconheça suas potencialidades?

A história de Beatriz não se resume aos diagnósticos. Ela mostra que as dificuldades podem fazer parte de uma trajetória sem determinar seu destino. Ao compartilhar sua experiência, a professora deseja alcançar outras pessoas, inclusive estudantes que possam se reconhecer em sua história e encontrar esperança para continuar perseguindo seus sonhos.

Uma vocação que floresceu aos poucos

Quando criança, Beatriz não imaginava que seria professora. Ao ouvir a tradicional pergunta sobre o que queria ser quando crescesse, a docência não aparecia entre suas respostas.

A profissão chegou gradualmente, até que ela começou a reconhecer as belezas da educação e a se apaixonar pelas possibilidades que o ensino oferece.

“Como professora, tenho a oportunidade de compartilhar e trocar vivências e conhecimentos. Espalho sementes que valorizam a ciência, a biodiversidade, a diversidade humana e o respeito às pluralidades”, conta.

Para ela, ensinar vai muito além de transmitir conteúdo. É assumir uma responsabilidade social na construção de uma sociedade pautada pelo respeito, pelo amor e pelo conhecimento, oferecendo aos estudantes condições para fazer escolhas conscientes.

Sua experiência pessoal acrescenta uma dimensão particular a esse compromisso. Reconhecer que cada pessoa aprende e se desenvolve de maneira diferente reforça a importância de uma educação atenta às singularidades, que não reduza os estudantes às dificuldades que apresentam, mas encontre caminhos para que possam desenvolver suas capacidades.

As raízes de uma educadora

A construção de Beatriz como professora e pesquisadora tem raízes em diferentes momentos de sua formação. Na educação básica, ela guarda como inspiração o professor de Filosofia Marco Antônio, já aposentado pela EEB Caetano Bez Batti.

No ensino superior, o professor Jairo José Zocche teve papel fundamental ao abrir as portas de seu laboratório e possibilitar seu ingresso no universo da pesquisa científica. Mais tarde, o professor Fernando Carvalho apresentou a ela o fascinante mundo dos morcegos, ampliando seus horizontes como pesquisadora.

Atualmente, outra referência importante é a professora Normélia Ondina Lalau de Farias, que lhe mostrou a relevância de um ensino decolonial, capaz de questionar perspectivas hegemônicas e reconhecer diferentes saberes, histórias e culturas.

São referências que, em diferentes etapas, contribuíram para formar a profissional que Beatriz é hoje: uma educadora que compreende o conhecimento como construção coletiva e reconhece a importância de diferentes vozes no processo de aprendizagem.

Uma conquista que representa toda uma família

Entre as lembranças que marcam sua trajetória, uma ocupa um lugar especial: a presença da avó em sua defesa de mestrado.

Mulher negra, analfabeta e guardiã de conhecimentos ancestrais, ela esteve presente para testemunhar uma conquista que ultrapassava os limites acadêmicos. Naquele momento, viu a neta tornar-se a primeira doutora da família e a primeira mulher a alcançar espaços e oportunidades até então distantes de sua realidade familiar.

A memória carrega o significado de uma conquista coletiva, construída sobre a força das gerações anteriores e a abertura de novos caminhos para as que virão.

Beatriz reconhece sua própria história nas experiências de estudantes que também enfrentam barreiras sociais. Por isso, acredita na importância das políticas públicas de acesso e permanência na educação.

“Tento ser exemplo para que discentes que vêm de lugares de margem social como eu tenham esperança de que, com políticas públicas de acesso e permanência, é possível mudar a realidade social e econômica”, afirma.

Sua trajetória mostra que a educação pode ampliar horizontes e transformar realidades, especialmente quando oportunidades concretas permitem que os estudantes ingressem, permaneçam e concluam seus estudos.

Quando uma oportunidade muda uma história

Ao longo de dez anos de atuação, Beatriz acumulou experiências, conversas, aprendizados e histórias vividas com diferentes turmas e estudantes. Entre tantas memórias afetivas, ela destaca a de uma aluna que a procurou em busca de uma oportunidade.

Com seu apoio, foi possível conseguir uma bolsa na UNESC por meio de uma iniciativa de equidade racial. Hoje, a estudante está nas fases finais do curso de Direito.

Para Beatriz, acompanhar esse percurso representa uma das maiores alegrias da docência: perceber que o acesso à educação pode abrir portas e oferecer novas perspectivas de futuro.

“Minha felicidade é ver qualquer aluno seguir um caminho que lhe permita melhorar sua vida”, resume.

A história dessa estudante traduz, na prática, aquilo em que a professora acredita: ensinar também é acolher demandas, reconhecer potencialidades e contribuir para que as oportunidades cheguem a quem, muitas vezes, encontra obstáculos para alcançá-las.

Ensinar é criar conexões

Na visão de Beatriz, o ensino envolve dimensões cognitivas e emocionais. É apresentar os conhecimentos produzidos no mundo, estimular a reflexão e oferecer uma base segura para que cada estudante se desenvolva integralmente e participe da sociedade de maneira consciente.

Estar ao lado dos adolescentes também tem um significado especial para ela. A convivência com os estudantes renova suas energias e fortalece sua esperança na humanidade.

“Representa uma oportunidade de ser amparo, de oportunizar trocas de histórias e conhecimentos. Estar com adolescentes me faz feliz, me energiza e me dá esperança na humanidade”, compartilha.

Essa compreensão revela uma educadora que não enxerga a sala de aula apenas como espaço de conteúdos, mas como lugar de encontro entre histórias, saberes e possibilidades.

Sua própria experiência também evidencia a importância de olhar para além das aparências e dos resultados. Nem sempre as dificuldades de um estudante são visíveis, e nem todos encontram respostas para seus desafios no mesmo momento da vida. Por isso, acolher, escutar e reconhecer diferentes percursos são atitudes fundamentais para uma educação verdadeiramente inclusiva.

Um sonho que continua em construção

Mesmo com uma trajetória acadêmica consolidada, Beatriz segue olhando para o futuro com novos objetivos. Atualmente, atua como professora substituta no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e tem como sonho conquistar uma vaga efetiva na instituição.

Seu desejo também se conecta a uma reivindicação mais ampla: a valorização dos professores em todos os aspectos da profissão.

Afinal, para que a educação continue transformando vidas, é fundamental que aqueles que dedicam sua trajetória ao ensino também encontrem reconhecimento, condições de trabalho e oportunidades de crescimento.

Uma mensagem para quem ensina

Ao refletir sobre o papel do professor, Beatriz deixa uma mensagem que sintetiza sua maneira de compreender a educação: o estudante chega à escola trazendo experiências, conhecimentos e uma história que merece ser reconhecida.

“Seu aluno não é uma folha em branco… E você não é o detentor da verdade! As histórias precisam ser escritas por mais de uma mão. Aproveite a oportunidade de ser professor para promover mais finais felizes!”

A mensagem ganha um significado especial quando observada à luz de sua trajetória. Uma menina que enfrentou dificuldades de aprendizagem tornou-se pesquisadora, professora e doutora, sem que os desafios vividos na infância definissem os limites de seu futuro.

Ao compartilhar sua história, Beatriz amplia as possibilidades de identificação para outras pessoas que talvez ainda estejam tentando compreender suas próprias dificuldades. Sua intenção é que estudantes e famílias encontrem acolhimento, que educadores reconheçam a importância de diferentes formas de aprender e que ninguém deixe de sonhar por acreditar que suas barreiras são maiores do que suas possibilidades.

A trajetória de Beatriz nos lembra que educar é reconhecer a humanidade presente em cada estudante, valorizar saberes diversos e contribuir para que novas histórias possam ser escritas.

Porque, quando o conhecimento encontra o afeto, as diferenças são respeitadas e as oportunidades chegam a quem precisa delas, a educação deixa de ser apenas um caminho individual e se torna uma possibilidade de transformação coletiva.

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