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Conexão e Educação: duas vidas, um amor e uma nova maneira de ensinar

Entre a sala de aula e a maternidade, Ana Paula Cittadin viveu uma gestação de alto risco, descobriu novos limites e agora se prepara para voltar à escola com um olhar ainda mais sensível para seus alunos

Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação Portal Conexão Sul

Por Simone das Graças Nogueira Feltrin

Outubro: um mês para contar histórias de quem ensina

Em outubro, minhas pautas de quarta-feira serão dedicadas a histórias de professores da nossa região.

A proposta é ir além da profissão e apresentar as pessoas por trás do educador: suas trajetórias, memórias, desafios, conquistas e sonhos.

Uma série para ouvir, conhecer e valorizar quem escolheu ensinar — porque cada professor tem uma história que merece ser contada.

Duas vidas, um amor e uma nova maneira de ensinar

Uma notícia inesperada mudou os planos, a rotina e, principalmente, o olhar de Ana Paula Cittadin sobre a vida.

Acostumada a dedicar grande parte da rotina à escola, Ana Paula descobriu que estava grávida. Até então, imaginava viver uma gestação como tantas outras. Mas veio a primeira surpresa: eram dois bebês.

“Foi uma notícia que me pegou de surpresa. Na hora eu só conseguia rir, de nervoso”, conta.

A confirmação de que seriam gêmeos bivitelinos trouxe ainda mais perguntas. Ao pesquisar sobre a possibilidade de uma ocorrência semelhante na família, Ana Paula descobriu uma história que até então desconhecia. A gestação, que já era inesperada, ganhou um significado ainda maior.

No início, tudo caminhava bem. Mas, por se tratar de uma gestação gemelar considerada de alto risco, o medo e a insegurança passaram a fazer parte da rotina. O objetivo era um só: levar os bebês o mais longe possível na gestação e evitar que nascessem prematuros.

Quando foi preciso desacelerar

O primeiro trimestre foi, segundo Ana Paula, a fase mais tranquila. Depois vieram as dores e as mudanças no corpo. O útero precisava crescer rapidamente para acomodar os dois bebês e, no segundo trimestre, ela precisou se afastar do trabalho.

Para quem sempre colocou a profissão entre suas prioridades, parar não foi simples.

“Eu que sempre coloquei o meu trabalho em primeiro lugar tive que dar uma atenção maior à minha saúde e à dos bebês”, relembra.

A partir dali, Ana Paula precisou aprender algo que nem sempre é fácil para quem está acostumado a organizar a própria rotina: viver um dia de cada vez.

Foram consultas frequentes, idas ao hospital e muitos momentos de preocupação. Em janeiro, já no fim da gestação, até as caminhadas se tornaram difíceis. Foi nesse período que a fé ganhou ainda mais espaço.

Ana Paula conta que se aproximou ainda mais de Deus durante a gestação. Quando conseguia caminhar, rezava o terço e carregava consigo uma medalha de Nossa Senhora das Graças, presente de uma amiga querida.

“Eu sentia que precisava muito de Deus, e foi Ele que me fortaleceu durante a gestação”, relata.

A experiência também a ensinou a reconhecer seus próprios limites e a compreender que nem tudo pode ser planejado ou controlado.

Duas vidas que chegaram para transformar uma

O nascimento dos filhos trouxe uma nova rotina. Vieram noites difíceis, descobertas, cansaço e, ao mesmo tempo, momentos que Ana Paula descreve como profundamente gratificantes.

Hoje, dedicada exclusivamente aos filhos, acompanha de perto cada descoberta e cada etapa do desenvolvimento dos dois.

“No início foi mais difícil, mas agora eu sinto que a maternidade está ficando um pouco mais leve”, conta.

Nesse processo, Ana Paula descobriu uma força que não sabia possuir. Mas também aprendeu que ser forte não significa conseguir fazer tudo sozinha.

Aprendeu a pedir ajuda, dividir responsabilidades e aceitar que existem limites.

“Não é possível controlar tudo, fazer tudo perfeitamente ou estar disponível o tempo inteiro. Aprendi a aceitar ajuda e, principalmente, a não me cobrar tanto.”

A professora que a maternidade está formando

Se a maternidade transformou a mulher, também começou a transformar a professora.

Ana Paula ainda não voltou à sala de aula, mas já sabe que não será exatamente a mesma profissional que saiu.

“Hoje consigo enxergar ainda mais que, por trás de cada aluno, existe uma criança com sentimentos, necessidades, dificuldades e uma história.”

Cuidar de dois bebês ao mesmo tempo também reforçou nela algo que já fazia parte de sua prática: cada criança tem seu próprio tempo.

Seus filhos mostraram que duas crianças podem viver o mesmo momento e, ainda assim, precisar de coisas completamente diferentes. Para Ana Paula, essa percepção também se aplica à escola.

“Meus filhos me ensinaram sobre paciência, presença e, principalmente, sobre respeitar o tempo de cada um.”

Um retorno cheio de sentimentos

A volta ao trabalho ainda traz ansiedade. Ana Paula sabe que precisará conciliar maternidade, casa e profissão e reconhece que sua rede de apoio continuará sendo fundamental.

Também pensa na adaptação dos filhos à creche e avalia a possibilidade de reduzir a carga horária por um período.

Ao mesmo tempo, existe a saudade.

“Estou com saudades dos alunos e dos meus colegas que se tornaram amigos”, conta.

Quando retornar à escola, seus alunos encontrarão a mesma professora que ama ensinar, mas também uma mulher que passou por uma experiência capaz de ampliar sua maneira de olhar para o outro.

Uma professora talvez mais atenta aos silêncios, às dificuldades, aos pequenos avanços e às histórias que cada criança carrega.

Trajetória Educacional de Ana

Professora licenciada em Geografia pela Unesc e mestre em Ciências Ambientais pela mesma universidade, Ana Paula há 11 anos constrói uma trajetória dedicada à educação. Passou por diferentes escolas, entre elas a E.E.B. Udo Deeke, E.E.F. Lydio De Brida, E.E.F. Rosalino De Nez, E.E.B. Prof. Pe. Schuler, E.E.B. Costa Carneiro, E.E.F. Demétrio Bettiol, Colégio Monsenhor Agenor Neves Marques e Colégio São Bento.

Atualmente, integra a equipe da E.E.B. Barão do Rio Branco, em Urussanga, onde continua construindo sua história como educadora.

Entre uma coroa e dois pequenos príncipes

Em 2014, Ana Paula viveu um momento especial ao ser escolhida Rainha da Festa do Vinho. Naquele período, carregava uma faixa, uma coroa e representava uma celebração importante para a comunidade.

Hoje, mais de uma década depois, a imagem é outra, mas continua carregada de significado.

A mulher que um dia foi coroada Rainha da Festa do Vinho agora carrega no colo dois pequenos príncipes: Pedro e Luiz.

São novos papéis, novos desafios e um amor que ela jamais havia experimentado dessa maneira. A coroa ficou como lembrança de uma etapa da vida. No colo, hoje, estão os dois filhos que transformaram sua rotina, suas prioridades e também sua maneira de enxergar o mundo.

Entre a Ana de 2014 e a mãe que é hoje, muita coisa mudou. Mas permanece a mesma mulher que segue construindo sua história com dedicação, agora aprendendo que algumas das maiores conquistas da vida não cabem em uma coroa, mas cabem perfeitamente em dois pequenos braços.

Uma nova maneira de olhar

A maternidade ensinou Ana Paula que pequenas conquistas podem representar grandes vitórias. Ensinou a valorizar o que antes parecia simples: uma noite tranquila, um café tomado com calma, um sorriso dos filhos e a presença de quem oferece apoio nos momentos difíceis.

Também trouxe uma nova compreensão sobre o cuidado.

“Ser mãe me ensinou a cuidar de uma maneira mais profunda, e ser professora me ensinou que cuidar também é uma forma de educar.”

Entre duas crianças que chegaram juntas e uma profissão que continua fazendo parte de sua identidade, Ana Paula começa a construir uma nova versão de si mesma.

Ela sabe que voltar à sala de aula exigirá adaptação. Talvez precise reorganizar horários, pedir ajuda e encontrar uma nova maneira de conciliar os diferentes papéis que agora fazem parte de sua vida.

Mas leva consigo algo que nenhuma formação acadêmica poderia ensinar da mesma maneira: a experiência de olhar para uma criança não apenas como aluno, mas como alguém que tem uma história, sentimentos, necessidades e seu próprio tempo.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior transformação.

Ana Paula não voltará para a sala de aula deixando a maternidade do lado de fora. Voltará levando consigo tudo o que os dois filhos lhe ensinaram sobre amor, paciência, limites, cuidado e respeito pelo tempo de cada um.

Porque, às vezes, para ensinar de uma nova maneira, também é preciso aprender a olhar a vida de um novo jeito.

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