Por Atna Arquitetura — Arquitetas Leka Costa e Maria Eduarda
Durante anos, fomos convencidos de que a boa arquitetura era silenciosa. Neutra. Branca. Lisa. Minimalista até a ausência. Mas algo começou a incomodar. Casas bonitas, porém vazias de alma. Ambientes impecáveis, mas sem conversa, sem cheiro de comida, sem gente ficando mais tempo do que o necessário.
Essa estética do “menos é mais” começa a dar sinais claros de desgaste. E, no lugar dela, emerge um movimento quase inevitável: a retomada da arquitetura afetiva. Aquela que não pede silêncio, pede presença.
“As pessoas estão cansadas de morar em espaços que parecem não ter história nenhuma para contar”, comenta Leka Costa, arquiteta da ATNA Arquitetura. “A casa precisa voltar a ser cenário de vida real, não apenas um catálogo”.
A negação do vazio
Não se trata de nostalgia gratuita. Trata-se de necessidade humana.
A casa contemporânea passou a priorizar materiais que não aquecem, nem física, nem emocionalmente. Superfícies frias, layouts que afastam, cozinhas que escondem o preparo da comida como se viver fosse bagunça.
A arquitetura afetiva surge como uma resposta direta a isso. Uma negação do espaço impessoal. Um “basta” à casa que não acolhe. “Projetar hoje é entender que as pessoas querem se reconhecer nos espaços. Elas não querem mais morar em lugares que poderiam ser de qualquer um”, reflete Maria Eduarda, arquiteta da ATNA Arquitetura.
O fogão a lenha como centro, não como adereço
Na região Sul, isso fica ainda mais evidente. O fogão a lenha retorna não como item decorativo, mas como ponto de encontro. Ele aquece no inverno, sim. Mas, principalmente, reúne.
É em volta dele que o tempo desacelera, a comida demora, a conversa se estende. “O fogão a lenha nunca foi só sobre cozinhar. Ele sempre foi sobre permanecer”, reforça Leka Costa.




Mais do que aquecer a casa, o fogão a lenha aquece as relações
A cozinha volta a ter mesa. E cadeiras. E gente
Outro sinal claro dessa virada afetiva é o retorno das mesas nas cozinhas.
Não ilhas frias para refeições apressadas, mas mesas de verdade. Para sentar. Para ficar. Para errar a receita e rir disso.
A cozinha deixa de ser um espaço de passagem e volta a ser um espaço de convivência. “Quando a cozinha tem mesa, ela convida. Quando não tem, ela expulsa”, provoca Maria Eduarda.


A cozinha como coração da casa, não como vitrine
Lareiras: o novo (velho) ponto de encontro
Assim como o fogão, as lareiras reaparecem com força. Não como símbolo de status, mas como centro emocional da casa. Elas organizam o espaço ao redor do estar, convidam à pausa, criam um motivo legítimo para estar junto, sem telas.
“A lareira muda o comportamento das pessoas dentro da casa. Ela faz o ambiente pedir menos pressa”, observa Leka Costa.


A arquitetura que convida à pausa também convida ao encontro
Varandas: o meio do caminho entre dentro e fora
As varandas, tão presentes na cultura brasileira, também retomam protagonismo. Elas são esse espaço híbrido, nem dentro, nem fora. Onde se conversa ao entardecer, onde o café esfria devagar, onde a casa respira.
No Sul, protegem do frio. No Brasil inteiro, protegem da pressa. “A varanda é o espaço onde a casa conversa com o mundo”, define Maria Eduarda.


Varandas não são sobra de projeto. São extensão da vida
A casa como memória viva
A chamada “casa da nona” nunca foi sobre estética perfeita. Ela sempre foi sobre cheiro de comida, móveis herdados, objetos com história, imperfeições que acolhem.
A arquitetura afetiva não rejeita o contemporâneo. Ela apenas recusa o vazio. “Projetar hoje é aceitar que a casa precisa ter marcas de quem vive nela”, conclui Leka Costa.
Talvez seja isso que esteja acontecendo:
Não estamos voltando ao passado.
Estamos apenas lembrando do que nunca deveria ter sido esquecido.





