O cancelamento da Festa do Vinho 2026 de Urussanga foi detalhado nesta segunda-feira (22) pela prefeita Stela Talamini, durante entrevista ao programa Comando Marconi, da Rádio Marconi. Segundo ela, a decisão, anunciada na última sexta-feira (19), foi tomada após um conjunto de fatores técnicos, climáticos e financeiros que se intensificaram nas últimas semanas.
Stela reforçou que o evento estava praticamente pronto, com toda a estrutura organizada, mas que o cenário externo exigiu uma mudança de rumo. “A festa estava pronta. Tudo pensado, licitações feitas, tudo encaminhado”, afirmou.
Uma decisão difícil após meses de planejamento
A prefeita iniciou a entrevista destacando o peso da decisão dentro da gestão municipal, classificando o momento como um dos mais difíceis do mandato. “Tomara que seja a primeira e a última, para que a gente possa caminhar e concluir o nosso mandato realizando aquilo que está pensado e projetado e muito bem planejado”, disse.
Ela lembrou que a festa vinha sendo organizada desde o ano passado, com cerca de oito meses de trabalho contínuo, envolvendo servidores públicos e comissão organizadora voluntária. “Essa decisão pesa, principalmente por pensar todo esse trabalho que foi dedicado à festa. E aqui já quero agradecer imensamente a comissão organizadora. É um trabalho voluntário”, destacou.
Estrutura pronta e revitalização do parque em andamento
Stela explicou que toda a estrutura da festa já estava definida, incluindo contratos, licitações e programação. Paralelamente, a prefeitura realizava melhorias no Parque Municipal, espaço tradicional do evento há mais de 40 anos. “O parque nunca recebeu um investimento especial. Estávamos concluindo esgoto sanitário, calçada de acesso, casa de força tudo encaminhado”, explicou.
Ela também citou intervenções recentes, como a troca de cercas e ações de infraestrutura em andamento.
Crescente preocupação com o El Niño
Um dos pontos centrais da decisão, segundo a prefeita, foi a intensificação dos alertas relacionados ao fenômeno El Niño, que passou a ser monitorado com mais atenção a partir de maio. “Quando nós iniciamos o planejamento, não se falava em El Niño. Era algo comum. Mas depois começou a se falar em El Niño forte, super El Niño”, relatou.
Stela explicou que inicialmente os dados indicavam maior concentração de chuvas no Oeste catarinense, mas relatórios mais recentes mudaram o cenário de risco. “Os últimos relatórios confirmaram o fenômeno e chegaram a indicar até 90% de chance de ser um super El Niño”, afirmou.
A prefeita também citou orientações do governo do Estado e ações preventivas iniciadas pelo município. “Recebemos o decreto do Estado e começamos nosso trabalho. Estamos fazendo limpeza de rios, retirada de madeira e pedras em pontos estratégicos”, explicou.
Risco climático e impacto direto na estrutura da festa
Segundo Stela, o fator determinante não foi apenas a possibilidade de chuva durante os dias do evento, mas o contexto climático mais amplo e seus efeitos prolongados. “A nossa preocupação não é só se vai chover no dia da festa. O parque é aberto, existe sempre esse risco. Mas agora estamos falando de um cenário maior”, disse.
Ela destacou que, diante das novas previsões, o risco deixou de ser pontual e passou a envolver possíveis danos estruturais e financeiros mais amplos. “Quando se fala dessa previsão, a reserva técnica não pode mais ser pensada só para um dia ou dois”, afirmou.
Situação fiscal e queda de receitas
A prefeita também apontou a situação financeira do município como fator relevante na decisão, destacando perda de capacidade de arrecadação e aumento de despesas obrigatórias. “As receitas não acompanham os índices inflacionários. Estamos com 3,8% enquanto a inflação está em 4,2%”, explicou.
Ela citou ainda impactos de fatores econômicos nacionais e mudanças em repasses obrigatórios. “Na pandemia houve redução de repasses, e hoje o município está pagando mais de INSS do que antes. Isso impacta diretamente”, disse.
Reserva técnica de R$ 1,5 milhão
Durante a entrevista, Stela confirmou que havia uma reserva técnica de aproximadamente R$ 1,5 milhão destinada à realização da festa. Com a mudança de cenário, esse recurso passa a ter outra finalidade prioritária. “Hoje esse valor fica como reserva técnica para emergências, caso o município precise atuar em situações mais graves”, explicou.
Ela citou possíveis usos em casos de enchentes, recuperação de pontes e manutenção de infraestrutura rural. “Na última chuva, 10 pontes foram levadas. Então precisamos estar preparados”, afirmou.
Contratos, rescisões e base jurídica
Sobre eventuais multas contratuais com artistas e fornecedores, a prefeita afirmou que o setor jurídico da prefeitura analisou os contratos e encontrou respaldo legal para as rescisões. “Os contratos foram avaliados. Dependendo do artista, há divergências, mas temos base legal para rescisão”, disse. Ela destacou que o cancelamento foi feito antes do prazo crítico previsto em alguns contratos. “Alguns contratos preveem 30 dias. Nós estamos fazendo isso com 40 dias de antecedência”, explicou.
Comissão organizadora e decisão conjunta
Stela fez questão de reconhecer o trabalho da comissão organizadora e afirmou que o grupo participou ativamente das discussões. “Tivemos inúmeras reuniões com a comissão, presidente, vice, tesoureiro, secretário. Todos foram ouvidos”, afirmou.
Segundo ela, a decisão final foi tomada após apresentação dos cenários e recebeu concordância do grupo. “Todos concordaram que, nesse momento, deveríamos adiar a festa. Foi praticamente uma unanimidade”, disse.
Venda de ingressos e cenário de incerteza
A prefeita também comentou sobre dúvidas relacionadas à venda de ingressos, afirmando que o tema foi monitorado, mas não foi determinante. “Eu fiz uma enquete com pessoas que já trabalharam em outras festas e me disseram que isso costuma se resolver mais perto do evento”, explicou.
Ela reconheceu, no entanto, que o cenário de cancelamentos em outros municípios influenciou o comportamento do público. “Quando outros municípios começaram a cancelar festas, isso gera insegurança nas pessoas”, disse.
Festa do Vinho volta em 2027 e 150 anos em 2028
A prefeita confirmou que a Festa do Vinho será retomada em 2027, mas ainda sem definição sobre formato e datas. “Fica para 2027. Ou junto com o gemellaggio ou separado. Isso ainda será discutido”, afirmou.
Ela também adiantou que 2028 será um ano especial para o município, com os 150 anos de Urussanga. “Será uma festa muito especial, como Urussanga merece e precisa”, disse.
Prevenção continua
Após o cancelamento, a prefeita garantiu que as ações preventivas seguem em andamento no município. “As escavadeiras estão dentro dos rios e vamos intensificar esse trabalho”, afirmou. Ela destacou ainda o monitoramento de áreas de risco e a preparação de estruturas de apoio para possíveis emergências. “Temos pontos de monitoramento com sensores de deslizamento. Precisamos estar preparados para qualquer situação”, concluiu.





