A colheita da uva Goethe safra 2025/2026 entra para a história da vitivinicultura catarinense como a primeira sob o selo de Denominação de Origem (DO) Vales da Uva Goethe. O reconhecimento consolida décadas de tradição, identidade territorial e aprimoramento técnico na produção de um vinho genuinamente brasileiro, cultivado em aproximadamente 50 hectares na região Sul de Santa Catarina.
De acordo com Patrícia Mazon, presidente da Progoethe, a safra foi marcada por condições climáticas bastante favoráveis. “Tivemos boa incidência de sol e ausência de chuvas durante a colheita, o que possibilitou uma maturação perfeita. O inverno foi mais prolongado, provocando uma colheita mais tardia, mas isso não interferiu na qualidade do fruto, já que janeiro não foi um mês chuvoso”, destaca.
O inverno rigoroso foi determinante para o bom desempenho dos vinhedos. Segundo Stevan Arcari, enólogo e gerente da Estação Experimental da Epagri, em Urussanga, o acúmulo de frio contribuiu para uma brotação mais uniforme. “Frutas de clima temperado tendem a responder melhor a invernos frios. Apesar de algumas semanas de maior umidade na primavera, que impactaram pontualmente a floração em alguns vinhedos, a média regional aponta para uma produção ligeiramente superior à habitual, com excelente qualidade”, explica.
Ainda conforme Arcari, embora a colheita tenha atrasado, as condições de maturação foram mais interessantes do que no ciclo anterior. “Houve registro de chuvas, mas dentro de um volume tolerável, sem causar prejuízos significativos. De forma geral, a safra apresenta um pouco mais de volume e até um incremento de qualidade”, afirma.
Para Antônio Bianco, da Vinícola Bianco de Orleans, a expectativa inicial de um ano desafiador foi superada. “No início parecia que seria uma safra complicada, mas acabou sendo tranquila e muito boa de trabalhar. Tivemos um período de colheita relativamente enxuto, com pouca chuva, o que garantiu uma boa concentração de açúcar. Teremos, mais uma vez, vinhos de excelente qualidade”, avalia. Segundo ele, o perfil sensorial da safra 2025/2026 deve evidenciar ainda mais o caráter aromático da Goethe. “Os consumidores podem esperar vinhos com muita fruta — maracujá e frutas cítricas em destaque — além das tradicionais notas florais.”
Evolução ténica na produção aliada ao conhecimento humano
Nos parreirais, a evolução técnica dos produtores também tem sido determinante para a consolidação da qualidade. As vinícolas vêm aprofundando o conhecimento sobre as peculiaridades da Goethe e de suas mutações brasileiras, como a Goethe Primo. “Os produtores de uva priorizam a colheita manual, além disso, na parte produtiva temos o maior cuidado na seleção das uvas para elaboração dos vinhos. Seguimos evoluindo e respeitando as tradições”, esclarece Patrícia Mazon.
O produtor Luiz Carlos Zen destaca os resultados obtidos em seu vinhedo de Goethe Primo conduzido em sistema de espaldeira e com cobertura. “Foi uma safra superior à anterior em qualidade. Conseguimos registrar 19,2° Brix em análises laboratoriais da Epagri, um índice considerado extraordinário para a variedade na região”, afirma. O elevado teor de açúcar natural reduz a necessidade de chaptalização e permite a elaboração de vinhos com cerca de 12% de teor alcoólico, mantendo equilíbrio e menor acidez. “Com a cobertura e a proteção, conseguimos deixar a uva alguns dias a mais na planta, alcançando maturação ideal”, completa.
Além da qualidade, os produtores também devem ter uma quantidade de uva maior em relação à safra anterior. “Tivemos um volume de uva um pouquinho maior esse ano e até um pouco mais de qualidade. No ano passado houve acúmulo de temperaturas baixas no final do ciclo e a maturação demorou um pouco mais na fase final. Já neste ano, embora a safra tenha atrasado devido ao inverno mais persistente, as condições para a maturação da uva foram mais interessantes”, avalia Stevan Arcari.
Incremento de produtividade no campo e nas vinícolas graças a combinação de clima favorável, inovação e aprimoramento do processo produtivo. Com isso, o vinho Goethe vem despertando cada vez mais interesse de consumidores em todo o país. “O aumento das vendas on-line e do fluxo de turistas nas vinícolas demonstra que a Denominação de Origem fortalece a reputação e amplia a visibilidade do território produtor”, reforça a presidente da Progoethe.
A safra 2025/2026, primeira sob a chancela de DO, simboliza não apenas um marco regulatório, mas a consolidação de uma identidade construída ao longo de gerações, e agora reconhecida oficialmente como única no mundo.
Sobre os Vales da Uva Goethe
Os Vales da Uva Goethe, localizados no Sul de Santa Catarina, reúnem cerca de 50 hectares dedicados ao cultivo da variedade Goethe. A região conquistou em 2012 o reconhecimento da Indicação Geográfica de Procedência e 2025 o finalmente de Denominação de Origem, certificando que as características do vinho estão diretamente ligadas ao território, ao clima, ao solo e ao saber-fazer local.
A Goethe, uva de origem híbrida adaptada às condições brasileiras, encontrou nos vales catarinenses seu habitat ideal, dando origem a vinhos leves, aromáticos e com identidade própria, hoje símbolo da vitivinicultura regional.
Texto: Janine Limas





