Conexão e Educação
Por Simone das Graças Nogueira Feltri
A profissão de professora, para Francine Costa De Bom, chegou antes mesmo de qualquer escolha profissional. Vinda de uma família de professores, ela cresceu identificada com o ofício de ensinar e encontrou na curiosidade o motor de sua trajetória. Hoje, com 22 anos de atuação na educação, constrói uma história que atravessa fronteiras e revela que ensinar também é aprender, recomeçar e resistir.
Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestra em Ciências da Linguagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e graduada em Licenciatura em Educação Física pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Francine vive uma nova etapa profissional na Itália, na Scuola dell’Infanzia Regina Pacis, em Vercelli.
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi justamente o recomeço em outro país. Depois de atuar como professora doutora em uma universidade brasileira, ela chegou à Itália e retomou a carreira como auxiliar de professora. Dois anos depois, passou a atuar como professora titular, exercendo duas funções: pedagoga e psicomotricista.
Mais do que uma mudança geográfica, essa experiência representou um exercício de coragem, adaptação e reconstrução profissional.
Inclusão que transforma todos os envolvidos


Entre as experiências que marcaram sua caminhada, Francine destaca uma vivida em 2025, com uma turma de crianças de três anos, formada por alunos de diferentes nacionalidades: italianos, romenos e albaneses.
Além da diversidade cultural e linguística, a turma apresentava desafios específicos relacionados à surdez. Uma das crianças era completamente surda, enquanto outra tinha pais também completamente surdos.
Mesmo com domínio da língua italiana, Francine percebeu que precisava ampliar seus conhecimentos para garantir a participação de todos. Iniciou, então, uma formação continuada paralela, buscando aprender novas estratégias para ensinar à criança surda e estabelecer uma comunicação efetiva com a família da outra criança.
O desafio exigiu planejamento, estudo e sensibilidade. Para alcançar os mesmos objetivos pedagógicos, a professora elaborava dois planos de aula, considerando as diferentes necessidades de aprendizagem e comunicação.
O resultado, segundo ela, foi extremamente positivo. As crianças avançaram em seu desenvolvimento, e a própria professora também se transformou ao longo do processo.
A experiência mostrou, na prática, que inclusão não significa apenas estar presente em uma sala de aula. Significa reconhecer as diferenças, buscar caminhos, rever estratégias e criar condições para que cada criança possa aprender e participar.
Para Francine, essa vivência deixou marcas profundas em sua trajetória — uma experiência tão rica em aprendizados que, como ela mesma reconhece, mereceria uma reportagem própria para explorar todas as suas dimensões.
“Ser professora hoje é um ato de resistência”


Ao refletir sobre o significado da docência, Francine resume sua compreensão em uma frase que traduz os desafios e a força de quem escolhe educar:
“Ser professora para mim hoje é um ato de resistência!”
Sua mensagem aos profissionais que estão começando é direta e carregada de convicção:
“Somente desista da profissão se você entrou nela como segunda opção. Se ela sempre foi a sua primeira opção, resista!”
Aos professores que já percorrem essa estrada, deixa outro convite à perseverança: continuar quando se acredita que o trabalho realizado transforma vidas, mesmo quando não é possível dimensionar até onde o conhecimento compartilhado pode chegar.
“Resista se você acredita que o seu trabalho muda a vida de muita gente, e você não consegue dimensionar até onde a sua sabedoria pode chegar, ficar e transformar.”
A história de Francine Costa De Bom nos lembra que a educação não se limita a um território, a uma língua ou a uma metodologia. Ela acontece nas relações, na disposição para aprender e na coragem de construir novos caminhos diante dos desafios.
De uma universidade brasileira à Educação Infantil italiana, sua trajetória revela que ensinar também exige humildade para recomeçar, sensibilidade para acolher as diferenças e perseverança para continuar transformando vidas.
Porque, onde houver uma criança aprendendo e um professor disposto a encontrar caminhos, a educação seguirá atravessando fronteiras.







