Por Simone das Graças Nogueira Feltri
A infância tem um tempo próprio. É o tempo de brincar, imaginar, descobrir o mundo, fazer perguntas e construir vínculos que acompanham a criança ao longo da vida. Em uma sociedade cada vez mais conectada, preservar essas experiências tornou-se uma preocupação que ultrapassa os muros da escola e mobiliza famílias, educadores e toda a comunidade.
Foi dessa inquietação compartilhada que nasceu o Movimento Infância Sem Telas, idealizado pelas pedagogas Ana Paula Mattos e Raquel de Souza Campos. Mais do que propor uma reflexão sobre o uso de dispositivos eletrônicos, a iniciativa busca resgatar o valor da presença, do brincar livre e das relações humanas no desenvolvimento infantil.
A proposta não é demonizar a tecnologia nem responsabilizar as famílias pelos desafios da vida contemporânea. O movimento parte de uma perspectiva acolhedora, que reconhece a realidade digital em que vivemos e defende escolhas mais conscientes sobre o espaço que as telas ocupam no cotidiano das crianças.
Duas trajetórias, um mesmo propósito
Com 15 anos de atuação na educação, Ana Paula Mattos é pedagoga, possui pós-graduação em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica e atua como coordenadora pedagógica do Centro Educacional Balão Mágico, em Criciúma. Também é escritora e palestrante.
Sua experiência na Educação Infantil, especialmente com bebês, contribuiu para ampliar seu olhar sobre a importância dos vínculos, das interações e das pequenas conquistas que marcam os primeiros anos de vida. Para ela, educar significa muito mais do que ensinar conteúdos: envolve presença, escuta e cuidado com o desenvolvimento de cada criança.
Ao seu lado está Raquel de Souza Campos, pedagoga e neuropsicopedagoga, cuja atuação está voltada ao desenvolvimento infantil, à aprendizagem e ao acompanhamento de crianças com dificuldades de aprendizagem e atenção, além da mentoria de pais.
As experiências das duas profissionais se complementam. Enquanto Ana Paula traz o olhar da prática pedagógica e da gestão escolar, Raquel contribui com conhecimentos relacionados ao desenvolvimento e à aprendizagem. Dessa união surgiu o desejo de ampliar o diálogo com famílias, escolas e comunidade sobre os desafios da infância na era digital.
Da conscientização à prática: ações que aproximam crianças e famílias
O Movimento Infância Sem Telas busca transformar a reflexão sobre o uso das tecnologias em atitudes possíveis no cotidiano. Para isso, suas idealizadoras apostam na informação, no diálogo e na mobilização de famílias, educadores e comunidade.
Entre as ações realizadas estão atividades presenciais com propostas de brincadeiras, interações e experiências que convidam crianças e adultos a estarem juntos. Uma delas aconteceu no Parque Astronômico, em Criciúma, com diferentes estações de brincadeiras e a oficina Barquinho da Presença.
O barquinho tornou-se um símbolo importante para as fundadoras. Durante a oficina, a dobradura é acompanhada de perguntas e reflexões que convidam as famílias a pensar sobre o tempo, a atenção e os vínculos construídos no cotidiano.
A proposta é simples, mas significativa: criar oportunidades para que adultos e crianças compartilhem uma experiência, conversem e percebam como pequenos momentos de presença podem fortalecer as relações.
Outra iniciativa foi o desfile Viver a Infância, realizado em parceria com o Shopping Della, Criciúma, com apoio da Brincô Moda Infantil e do Clube Melissa. Mais do que apresentar uma coleção de camisetas, o evento buscou valorizar o brincar, a expressão das crianças e a importância de viver a infância com presença.
As ações demonstram que a reflexão sobre o uso das telas pode sair do ambiente familiar e escolar e ganhar espaços de convivência, lazer e mobilização comunitária.
Informação que chega às famílias
Além das atividades presenciais, o movimento investe na produção e na divulgação de conteúdos educativos. As fundadoras elaboraram um e-book gratuito com orientações para as famílias e escrevem a coluna semanal A Infância Pede Presença, publicada em um jornal de Criciúma.
Nas publicações, abordam temas relacionados ao desenvolvimento infantil, ao uso equilibrado da tecnologia, aos vínculos familiares e às experiências importantes para o crescimento das crianças.
O movimento também utiliza as redes sociais profissionais de suas idealizadoras para ampliar o acesso às informações e estimular conversas sobre os desafios da infância na era digital.
A intenção é aproximar o conhecimento da realidade das famílias, oferecendo subsídios para que pais e responsáveis possam refletir sobre seus hábitos e construir mudanças possíveis. Mais do que estabelecer proibições, a iniciativa procura fortalecer a presença dos adultos e ampliar as oportunidades de experiências significativas durante a infância.
Mais do que limitar telas, valorizar experiências
Brincar, explorar a natureza, conversar, imaginar histórias e interagir com outras crianças são experiências importantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Quando o uso das telas ocupa espaço excessivo na rotina, torna-se necessário observar se essas vivências estão sendo preservadas.
Dificuldades de atenção, alterações no sono, irritabilidade e redução das oportunidades de brincar estão entre as preocupações abordadas pelo movimento. A proposta é compartilhar informações acessíveis sobre o tema, incentivando famílias e educadores a observar a rotina das crianças e a buscar alternativas adequadas a cada realidade.
O caminho escolhido é o da orientação, não o da culpa. Em meio às exigências profissionais, domésticas e familiares, muitas pessoas enfrentam dificuldades para estabelecer limites e encontrar equilíbrio. Por isso, o movimento procura oferecer informação e acolhimento, favorecendo mudanças possíveis no cotidiano.
A tecnologia faz parte da realidade contemporânea, e a proposta não é eliminá-la da vida das crianças. O objetivo é garantir que ela não substitua experiências essenciais, como o movimento, a criatividade, a convivência, o contato com a natureza e as relações humanas.
Pequenas mudanças que podem transformar a rotina
Para as fundadoras, o primeiro passo para reduzir o tempo de tela não precisa ser uma proibição imediata, mas a observação dos hábitos familiares.
Em quais momentos o celular ou outros dispositivos aparecem? Durante as refeições? Nos períodos de espera? Quando a criança está entediada, chorando ou frustrada? Essas perguntas ajudam a identificar situações em que as telas acabam ocupando espaços que poderiam favorecer a conversa, a brincadeira ou a convivência.
A partir dessa percepção, as pedagogas sugerem mudanças simples e possíveis, como reservar momentos sem celulares durante as refeições, retomar histórias antes de dormir, brincar ao ar livre, envolver as crianças nas tarefas do cotidiano e oferecer materiais para criar, explorar e imaginar.
Outra orientação é permitir que as crianças experimentem o tédio, aprendam a esperar e descubram maneiras próprias de ocupar o tempo. Nem todo momento precisa ser preenchido por estímulos ou entretenimento.
As fundadoras também chamam a atenção para o exemplo dos adultos. Pedir que uma criança deixe o celular de lado enquanto os próprios responsáveis permanecem constantemente conectados pode tornar o desafio ainda maior.
A presença, nesse sentido, vai além de estar fisicamente no mesmo ambiente. Envolve escutar, participar, brincar e dedicar atenção às experiências compartilhadas.
Uma rede de cuidado com a infância
O Movimento Infância Sem Telas foi pensado para alcançar diferentes públicos: famílias, professores, gestores escolares, profissionais da saúde, empresas e instituições interessadas no desenvolvimento infantil.
Uma experiência especialmente significativa para as fundadoras tem sido observar a participação de crianças e famílias nas ações presenciais. Ao oferecer espaços para brincar, construir um barquinho ou simplesmente estar junto, elas percebem como propostas simples podem despertar interesse, conversas e encontros.
O desfile Viver a Infância também representou um momento importante, tanto pela participação das crianças quanto pelo envolvimento de empresas dispostas a apoiar a mensagem do movimento.
Outro retorno vem das famílias que acompanham as publicações e se identificam com as situações abordadas. Muitas reconhecem que desejam mudar determinados hábitos, mas nem sempre sabem por onde começar.
Essa aproximação reforça a convicção das idealizadoras de que não basta apontar as preocupações relacionadas ao excesso de telas: é necessário oferecer caminhos possíveis e acolher as dificuldades encontradas no cotidiano.
As fundadoras ressaltam, entretanto, que ainda não realizam uma mensuração formal dos resultados alcançados. O que observam é o interesse pelas ações, pelas orientações e pela construção de uma rede de pessoas dispostas a olhar com mais atenção para a infância.
Como famílias, escolas e comunidade podem participar
O movimento é uma iniciativa independente e aberta à participação de todos que acreditam nessa causa.
As famílias podem acompanhar as publicações, compartilhar as reflexões, acessar o e-book gratuito e experimentar em casa as propostas apresentadas. Também são convidadas a conversar com as idealizadoras, compartilhar dificuldades e contribuir com ideias.
As escolas têm um papel fundamental nesse processo. Para Ana Paula e Raquel, a parceria entre família e escola é indispensável, pois a discussão sobre o uso das telas precisa considerar a realidade das crianças e os desafios enfrentados pelos adultos responsáveis por sua educação.
As fundadoras estão abertas a convites para encontros, palestras, rodas de conversa e ações com famílias, professores e comunidades escolares. O objetivo é ampliar os espaços de diálogo com uma abordagem acolhedora, fundamentada no desenvolvimento infantil e próxima da realidade das famílias.
O movimento conta ainda com a Rede Porto da Presença, formada por empresas e instituições que apoiam a iniciativa e ajudam a levar sua mensagem a novos espaços. A proposta é envolver diferentes setores da comunidade e fortalecer a compreensão de que cuidar da infância é uma responsabilidade coletiva.
Próximos passos: ampliar a rede e fortalecer a presença
Entre os próximos objetivos estão a ampliação das ações presenciais, o fortalecimento da Rede Porto da Presença e a construção de novas parcerias com escolas, empresas e instituições.
As fundadoras também pretendem continuar promovendo oficinas, encontros e momentos de reflexão com famílias e professores, além de produzir materiais acessíveis que ajudem a transformar informação em mudanças no cotidiano.
O desejo é que o movimento cresça sem perder aquilo que lhe deu origem: lembrar aos adultos que a infância acontece agora e que as crianças precisam de tempo, escuta, afeto, brincadeiras e relações verdadeiras.
Para as idealizadoras, não é necessário promover grandes mudanças de uma só vez. Muitas vezes, tudo começa com uma refeição sem celular, uma história contada com calma, uma brincadeira no chão ou alguns minutos de atenção inteira.
É nesse conjunto de pequenas escolhas que o movimento procura construir sua contribuição: não culpabilizar as famílias, mas convidá-las a perceber que atitudes cotidianas podem abrir mais espaço para experiências significativas na vida das crianças.
Menos telas. Mais presença. Mais infância.
Em um mundo no qual os dispositivos digitais estão cada vez mais presentes, o Movimento Infância Sem Telas convida os adultos a fazer uma pausa e refletir sobre a infância que estão ajudando a construir.
A iniciativa de Ana Paula Mattos e Raquel de Souza Campos mostra que a discussão sobre tecnologia pode ser também uma oportunidade para recuperar brincadeiras, fortalecer vínculos e aproximar famílias, escolas e comunidade.
Defender a infância não significa ser contra a tecnologia. Significa reconhecer que ela precisa ter seu lugar, sem ocupar todos os espaços de uma fase da vida que não se repete.
Uma brincadeira compartilhada, uma conversa sem distrações, uma história antes de dormir ou uma tarde ao ar livre podem parecer gestos simples, mas representam oportunidades de convivência, descoberta e afeto.
A infância é um tempo que não se repete. Protegê-la é um compromisso que precisa ser compartilhado por todos nós.
Ana Paula Mattos e Raquel de Souza Campos são fundadoras do Movimento Infância Sem Telas. @movimentoinfanciasemtelas















