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Da tribuna às ruas: fala de vereador provoca reação, protesto e acirra debate político em Urussanga

Críticas de Ivan Vieira à administração municipal desencadearam manifestações da prefeita, da base governista, de um grupo de mulheres e do PL; vereador nega misoginia e afirma que continuará cobrando mudanças

Foto: Reprodução Redes Sociais
Foto: Reprodução Redes Sociais

A repercussão das declarações feitas pelo vereador Ivan Vieira (PL) na tribuna da Câmara de Urussanga, na sessão do dia 18 de agosto, ganhou novas dimensões nesta semana e passou a ocupar o centro do debate político no município. O episódio, que começou com críticas à condução da administração municipal, provocou uma resposta da prefeita Stela Talamini, manifestações na sessão dessa terça-feira (25), protesto de mulheres no plenário, novo pronunciamento do vereador e posicionamentos públicos de setores políticos da cidade.

Na sessão do dia 18, Ivan afirmou que continuaria apontando problemas da administração municipal e fez uma sugestão direta à prefeita: “essa administração já não deu mais certo, a gente já sabe que não deu mais certo, que é um caos”. Na sequência, disse: “Quem sabe ela pega e dá um tempo, vai pegar umas férias, vai descansar, deixa o Renato e a esposa tocar um pouco. Deixa seis meses para o Renato, para ver se ele consegue reverter”.

O vereador reconheceu que a forma da declaração poderia ser considerada grosseira, mas sustentou que sua intenção era cobrar resultados da administração. “É grosseiro dizer isso, né? Mas é grosseiro também quando a população chega, não é atendida”, afirmou. Ao encerrar a manifestação, reforçou: “Porque está ruim e eu vou continuar dizendo que está ruim até melhorar. Se melhorar, eu mudo o meu discurso.”

A fala ganhou repercussão nos dias seguintes e chegou à entrevista concedida pela prefeita Stela Talamini ao programa Comando Marconi, da Rádio Marconi, na segunda-feira (24). Questionada sobre as críticas feitas na Câmara, a prefeita afirmou que a oposição faz parte da democracia, mas estabeleceu um limite para o que considera aceitável. “Eu fui vereadora durante oito anos, a oposição é natural, é normal, é salutar, agora ela não pode ser desrespeitosa, considero até misógina, pela forma, pela agressividade, pela forma que se conduziu determinados assuntos”, declarou.

Stela também criticou o que classificou como uma postura de oposição baseada apenas em apontamentos negativos. “Uma crítica pela crítica, ela não constrói nada para a sua cidade”, afirmou. Ao longo da entrevista, a prefeita passou a apresentar ações realizadas pelo governo como contraponto às críticas e defendeu que o município vem avançando, embora ainda existam problemas a serem resolvidos.

O assunto voltou à Câmara na sessão dessa terça-feira (25), desta vez com a vereadora Bruna Gabriela Salvador, líder do governo, manifestando repúdio a discursos que, segundo ela, ultrapassem a crítica política e atinjam mulheres com ataques, humilhações ou violência verbal. “Liberdade de expressão não é licença para cometer violência verbal”, afirmou Bruna. Ao defender a atuação da prefeita, a vereadora sustentou que a fiscalização e a divergência política são legítimas, mas devem ocorrer dentro de parâmetros de respeito. Ao final de seu pronunciamento, resumiu sua posição: “Fiscalizem a prefeita, critiquem a prefeita, discordem da prefeita, cobrem a prefeita, mas respeitem a mulher”.

A discussão ganhou também uma dimensão de mobilização dentro do próprio plenário. Um grupo de mulheres esteve na Câmara durante a sessão de terça-feira com cartazes em defesa das mulheres e contra a misoginia, em uma manifestação relacionada às críticas dirigidas à prefeita. O protesto acrescentou um novo elemento ao debate, que deixou de ser apenas uma discussão entre situação e oposição e passou a envolver também a forma como mulheres que ocupam espaços de poder são tratadas no ambiente político.

Vereador rejeita acusação de misoginia

Diante da repercussão, Ivan Vieira voltou a abordar o assunto na tribuna na sessão de terça-feira. O vereador negou que suas críticas tenham relação com o fato de a prefeita ser mulher e afirmou que continuará exercendo a função de fiscalização. “O que eu quero, o que eu peço da administração são resultados. Resultado, resultado positivo”, declarou. Ivan afirmou que suas cobranças são direcionadas à gestão municipal e não à condição pessoal da prefeita. “Indiferente de ela ser mulher ou homem, isso não faz a diferença”, disse.

No pronunciamento, o vereador voltou a citar problemas que considera existentes em obras e serviços públicos e mencionou reclamações recebidas da população, especialmente na área da Saúde. Também defendeu a realização de uma pesquisa independente de satisfação para medir a avaliação dos moradores sobre os serviços municipais. “Saiam da bolha. Eu gostaria muito de estar falando diferente. Eu gostaria muito de estar aqui exaltando a administração”, afirmou.

O vereador também disse reconhecer ações positivas do governo e citou, entre outros pontos, o trabalho da secretária de Educação. Ainda assim, reafirmou que pretende manter as cobranças enquanto considerar que existem problemas a serem solucionados.

Debate ultrapassa a Câmara e ganha manifestações políticas

A repercussão também chegou às redes sociais. O suplente de vereador e ex-presidente do PT de Urussanga, Alvaro Escaravaco, publicou um texto no qual criticou o que chamou de uma forma “nada educada” de fazer política no município e defendeu que oposição e situação possam exercer seus papéis sem ataques pessoais.

Escaravaco afirmou que episódios semelhantes já ocorreram em diferentes administrações e declarou solidariedade à prefeita, embora tenha ressaltado que não integra o atual governo. “Aqui não tem anjos, mas também não tem demônios. Somos uma comunidade pequena. Todos se conhecem. Sem que abdiquemos de nossos ideais, nossos credos, podemos fazer política com mais serenidade e mais educada”, escreveu.

Em outro trecho, rebateu a associação feita por Ivan entre a defesa do respeito às mulheres e aquilo que o vereador teria chamado de “esquerdalha”. “Não vereador, respeitar mulheres e repudiar qualquer ato misógino é coisa de gente decente, de gente democrática”, escreveu Escaravaco. Ao final, declarou: “Bato no peito, com orgulho e digo em voz bem alta: EU SOU ESQUERDALHA”.

PL manifesta apoio a Ivan

No outro lado da discussão, o Partido Liberal (PL) de Urussanga divulgou nesta quarta-feira (26) uma nota oficial em defesa do vereador Ivan Vieira. A legenda afirmou que o parlamentar estava exercendo sua função de fiscalização e classificou como equivocada e descontextualizada a atribuição de teor misógino ao pronunciamento.

Na avaliação do partido, a sugestão para que a prefeita se afastasse temporariamente para que o vice-prefeito assumisse foi uma crítica de natureza exclusivamente política e administrativa. O PL afirmou que Ivan teria buscado questionar os resultados da atual gestão e defendeu que o debate municipal seja concentrado em ideias, metas e resultados.

A legenda também repudiou o que chamou de “tentativa de rotular essa cobrança legítima de gestão como um ato de misoginia” e declarou respeito às mulheres e ao papel delas na política.

Ao final, o PL reafirmou “profundo respeito a todas as mulheres” e manifestou “irrestrito apoio” a Ivan Vieira, afirmando que o vereador continuará exercendo o mandato “com independência” e realizando a fiscalização da administração municipal.

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